terça-feira, 22 de abril de 2014











mariam sitchinava 





















Anda, vou-te mostrar a terra
dos teus pais, avós, antepassados
tão antigos que os podes escolher.
Este aqui é noé, de barba por fazer;
meteu na arca puro e impuro, bem e mal,
inventou o vinho, homem melhor
da sua geração ( não é grande elogio ),
teve filhos, netos, é de crer que morreu.
Estoutro, não sei bem, era pirata na malásia.
Vês as colinas? São tuas, quando
as olhas a direito. Realmente tuas,
parte de um mundo teu.
Sim, isso são filosofias,
tens razão. ( E tem graça ao ter razão ).
Anda daí, vou mostrar-te o colete de forças
onde era costume, sabes, tratar casos assim.

antónio franco alexandre 








tenho uma terrível afeição pelas coisas tristes. que fazem tremer a pele. doer o coração - às vezes corro forte céu fora. terra dentro. à procura do nome. do rosto. do homem - ninguém nunca me quis tanto como viver. tanto que a pele fuja. tanto que o corpo correndo me encontrasse - e dizer beleza com a boca torta. e pedir socorro já de corpo morto - sobre o que passa nada quero. sobre o que vem que o tempo cuide. que alguém tome conta e nota. que eu não me importo mais - vou e voou. 











terça-feira, 15 de abril de 2014






 ~
laura makabresku





quis-te tanto que gostei de mim!
Tu eras a que não serás sem mim!
Vivias de eu viver em ti
e mataste a vida que eu te dei
por não seres como eu te queria.
Eu vivia em ti o que em ti eu via.
E aquela que não será sem mim
tu viste-a como eu
e talvez para ti também
a única mulher que eu vi!

almada negreiros





lembro-me do seu rosto. nenhuma memória me incomoda tanto - o corpo corre monte acima. há folhas de eucalipto. musgo e pernas presas a heras. braço agarrado a elas - desaparece - o homem da minha infância morto num precipício. e a sua filha. de pele como a neve. chora - digo: não fiques triste. outro mundo vos espera - sempre acreditei noutros mundos. paralelos a este. onde é possível ser feliz. estar em paz - a miúda. branca. não me ouve. só às lágrimas grossas. queimando a pele - o corpo. agora estanque num pedaço de horizonte. sonha - queria contar-lhe das constelações mas sei que não iria ouvir - espero que anoiteça e sei do buraco negro. inteiro. para onde o homem da minha infância se atirou. foi como uma estrela que choveu - 




















sábado, 5 de abril de 2014





ann he











Fica ao menos o tempo de um cigarro, evita
comigo que este tempo ande. Lá fora
são as casas, vive gente à luz de um candeeiro,
o som que nos chega apagado pela distância
só denuncia o nosso silêncio interrompido.
Ajuda-me, faremos o inventário das coisas
menos úteis, mágoas na mágoa maior do tempo.
Fica, não te aproximes, nenhum dia
é menos sombrio, quando anoitecer vamos ver
as árvores cercando a casa.

helder moura pereira




que alegria nos socorre quando as tardes trazem a chuva para a estação errada. pergunto-me - se ao menos não me doessem todas essas árvores de que somos feitos - nesta primavera nada rebenta. só o peito. e a certeza de que o tempo vai melhorar chega-me pela boca de quem conhece as luas. as nuvens. o sol - nenhuma luz pode permanecer no corpo quando o cinzento dos dias se repete - e é como se subitamente uma tristeza se pendurasse no meu pescoço. a obrigação de a carregar como se a vida disso dependesse - quero um mundo que não há porque nenhum homem o pode criar e já não se fazem deuses como dantes. um mundo onde se pudesse nomear as tristezas - aí minha tristeza. de nome maria. exilava - 




sábado, 29 de março de 2014














laura makabresku 






















deus tem que ser substituído rapidamente por poe-
mas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.

a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abis-
mo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-
bar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias.

mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu cora-
ção, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.

a dor de todas as ruas vazias.

pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lis-
boa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no
cimo do mastro, e mandar arrear o velame.

é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem
cadastro.

a dor de todas as ruas vazias.

sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o
filme acabou. não nos conheceremos nunca.

a dor de todas as ruas vazias.

os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.

a dor de todas as ruas vazias.

al berto







e dizer-vos que nenhum mundo nos espera. estando certa que o pessimismo que me habita só existe à força de pesadelos e sombras. e outras memórias que o corpo guarda - talvez mais tarde faça sentido contar-vos  essas histórias de gente crescida. de avós e pés de galinha apertados a cordel - latidos de cão. fumo. mãos secas. verde musgo. assim te recordo como se voltasses de repente à terra - sabias de cor ladainhas e provérbios. que luas eram. que tempo vinha. de nuvens ou de vento tiravas fundamento e a vida corria. dizias histórias do antigo testamento para justificar actos e omissões. cedo me ensinaste o temor a deus e a misericórdia dos santos - contigo aprendi de plantas. árvores. frutos. sementes. que a água segue pela inclinação das terras e nada pertence aos homens. porque tudo é do mundo - que a vida vale a pena pela bondade que temos. nos sonhos que construímos. pela força dos valores de que somos feitos - o teu corpo tinha uma luz que não há - 































sexta-feira, 28 de março de 2014




































Certas palavras muito duras quando a noite cai
não devem ter outra origem sabes tão bem como eu
porque agora a lava das lágrimas ao crepúsculo
são as rosas com que o poeta fala
à multidão em volta do crocodilo o animal repugnante
de costas para a luz contra o grande uivo:
de oriente a ocidente a mesma flor podre o estado
segredos de estado as razões de estado a segurança do estado
o terrorismo de estado os crimes contra o estado
e o equilíbrio do terror
de oriente a ocidente meu amor de oriente a ocidente

Digo não Eu digo não
digo o teu nome que diz não

No entanto às portas da cidade e ao pé de cada árvore
à espera que tu chegues ou passes simplesmente
estão os grandes do império com o chapéu na mão
para cumprimentar-te
Então passas tu com a lua no peito
dividindo distribuindo os alimentos


antónio josé forte







a primeira vez que ouvi falar de amor tinha seis anos - meu tio zé silva amolava o cutelo. nunca lhe conheci outra ternura  - contou-me que a minha tia acamara por uma trombose - minha tia maria. de pele muito clara. cabelos sempre penteados sobre a almofada. de quem só lembro o nome e o cheiro a pó talco- por essa altura eu pouco sabia do mundo. e nada do amor - contou-me que o amor era saber que ela preferia morrer e mantê-la viva. com mil cuidados. pelo egoísmo de puder abraçá-la. ainda que o corpo imóvel. ainda que a face sem expressão. ainda assim -  mais tarde o amor viria a ser esta foto dos meus pais - com treze anos achava que o amor era de mãos dadas e olhar romântico - não sei. hoje com vinte e seis. entre o amor egoísmo e o amor romântico. que amor é meu - sei mais do mundo. que dói. que às vezes é irreparável. que faz mal ao coração - acho que cresci num equilíbrio entre egoísmo e romantismo. um amor mundo.














domingo, 16 de março de 2014








mariam sitchinava










A vida recomeça e o sol brilha
a tudo isto chamam primavera
mas nada disto cabe numa só palavra
abstracta quando tudo é tão concreto e vário
O meu país são todos os amigos
que conquisto e que perco a cada instante

ruy belo








de certo ainda é possível ser feliz. e esta certeza incomoda-me - durante anos acreditei que nenhuma felicidade me visitaria. dessa felicidade que faz rebentar o coração. capaz de dar sentido à vida e entregar luz ao corpo - quando era pequena costumava senti-lo todos os dias. essa esperança no futuro que faz da infância a idade onde regressamos quando nos perdemos. quando a vida é confusa - há muito tempo que não tinha esperança. andava neste quase futuro construído à pressa entre um sonho e outro. subitamente regresso a esta certeza e entro em pânico. incomoda-me saber que é possível ser feliz - é como quando perdemos alguém. um amor. um amigo. há uma parte de nós que perdemos e não volta. 






sexta-feira, 14 de março de 2014





marija kovac










Escrevias pela noite fora. Olhava-te, olhava
 o que ia ficando nas pausas entre cada 
 sorriso. Por ti mudei a razão das coisas, 
faz de conta que não sei as coisas que não queres 
 que saiba, acabei por te pensar com crianças 
 à volta. Agora há prédios onde havia 
laranjeiras e romãs no chão e as palavras 
 nem o sabem dizer, apenas apontam a rua 
que foi comum, o quarto estreito. Um livro 
é suficiente neste passeio. Quando não escreves 
estás a ler e ao lado das árvores o silêncio 
é maior. Decerto te digo o que penso
baixando a cabeça e tu respondes sempre 
com a cabeça inclinada e o fumo suspenso 
no ar. As verdades nunca se disseram. Queria 
prender-te, tornar a perder-te, achar-te 
assim por acaso no meu dia livre a meio 
da semana. Mantêm-se as causas iguais 
 das pequenas alegrias, longe da alegria, a rotina 
 dos sorrisos vem de nenhum vício. Este abandono 
 custa. Porque estou contigo e me deixas 
a tua imagem passa pelas noites sem sono, 
está aqui a cadeira em que te sentaste 
 a escrever lendo. Pudesse eu propor-te 
 vida menos igual, outras iguais obrigações. 
 Havias de rir, sair à rua, comprar o jornal. 

helder moura pereira








por certo tocarás old madrid à varanda fazendo inveja a todos os homens que passam. ninguém na rua conhecerá o teu nome. o meu nome. o nosso amor. o desconhecimento é a maravilha de toda a primeira vez - entre livros e tabaco. assim te vêem os poetas. também tu escolheste ser árvore - queria para ti outro país. assim verde. assim mar. menos dor. menos esquecimento. a possibilidade de criar luz e esperança - queria para ti uma casa de nome próprio. janelas altas voltadas para o céu. pássaros ocupando ramos e a certeza que o éden existe como vida que nos espera do lado certo do amor.