quinta-feira, 29 de maio de 2014










juh ore duh anne












A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.
Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!
Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava pra ela,
e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.
A lua ficou tão triste
com aquela história de amor
que até hoje a lua insiste:
— Amanheça, por favor!
paulo leminski






ir com os pássaros. passar de rasante as nuvens. adivinhar-lhes as formas. picar-lhes o coração. mais tarde descobrir que os sonhos são a melhor parte da vida. ainda que só existam quando o corpo dorme - sem corpo é mais fácil voar - sei que o errado existe para que se reconheça o certo. que o céu e a terra não se tocam. mas quando fecho os olhos estou certa que em algum lugar isso acontece e nasce amor - os pinheiros altos da minha infância. onde os corvos fazem ninho. regressam. de pés molhados volto aos tempos pequenos de ser tudo enorme. sou feliz e os meus cabelos livres. e os meus braços esbarram em braços de árvores. não dói. nada dói quando assim sorrimos -








sexta-feira, 23 de maio de 2014
































O destino destina 
mas o resto é comigo

miguel torga












esta manhã acordei contigo - saímos de casa. cruzamos a rua e ficamos a admirar as nuvens brancas no céu. marcamos de paz o mundo. subíamos a rua de mãos dadas quando uma pomba. num voo rasteiro. se abeirou de nós. deste-me uma migalha do pão que comias - ensinaste-me a respeitar todos os seres. a natureza dos corpos. o movimento das árvores. a certeza dos ventos - avó. eu sei que já morreste mas hoje acordaste comigo - tenho muitas saudades tuas. das nossas conversas. dos teus braços. repito o teu nome baixinho. volto aos nossos lugares - tu sabes às vezes tenho uma paz. uma calma. e a lágrima regressa e teima e dói o coração. aperta-me a garganta e quase sem ar o corpo vai - sei que estás comigo. sabes da minha vida. imagino-te a puxar-me pelo braço. às vezes ouço-te dizer: vem por aqui. e eu vou avó. eu vou - o meu mundo. tal como o conhecia. morreu contigo. e foi difícil conhecer outro. foi duro. hoje sou uma pessoa melhor. deixaste-me a tua bondade. um sentido para a vida - e eu sei que me ouves dizer: amo-te avó.











sábado, 17 de maio de 2014













mariam sitchinava












Mar
Nunca conseguiu viver longe do mar.
A sua adolescência ficara cheia de dunas e de camarinhas, de falésias e águias, de tempestades, de nomes de barcos e de peixes; de aves e de luz coalhada à roda duma ilha.
Conhecera a ansiedade daqueles que, ao entardecer, olham meio cegos a vastidão incendiada do oceano - e ninguém sabe se esperam alguma coisa, alguma revelação, ou se estão ali sentados, apenas, para morrer.
Aprendera, também, que o mar, aquele mar - tarde ou cedo - só existiria dentro de si: como uma dor afiada, como um vestígio qualquer a que nos agarramos para suportar a melancólica travessia do mundo.
al berto











não sei ana se já te falei da chuva. se já te disse das flores. de ser primavera lá fora. se te contei de quando me cortei no tórax com uma tesoura - queria tirar-me do peito o coração - de como no lugar da ferida me cresceram algas. tempos houve em que cortava o corpo. procurava em todas as feridas um pedaço de coração a abater. doía-me tão forte dentro, ana, doía-me tão forte e tão fundo dentro da pele. não sei ana se já te falei de amo. de voltar os olhos para o mundo e ver crescer-lhe flores dentro. é destas flores que te devia ter falado. de como estas flores te enchem subitamente de vida. e o amor também dói. sobretudo quando está longe e o corpo o chama para perto e ele não ouve. é que o amor às vezes não tem ouvidos ana - trouxe-te hoje um segredo. quero dizer-to quando o sol chegar mas hoje não há sol. estou terrivelmente só. ana. - trago dentro de mim todas as histórias. marcas de facas e tesouras na pele. memórias que arrastam memórias. de sangue. de dor. de ter morrido já - ainda não te contei de como morri. era dezembro. engoli uma caixa de anti-depressivos. lembro-me de ter escrito um pequeno testamento. deixava-te os meus livros ana.  a ti que nunca conheci. deixava-te os meus livros - o hospital é um lugar frio quando se acorda da morte. eu tinha frio e não havia nenhum corpo ali ao lado.  que me aquecesse. que me abraçasse. nenhum corpo. ana. nenhum -  morri e nasci sozinha. e digo-te ana ninguém deve morrer só. não há nada mais triste do que morrer só. não sei hoje ana se já te falei da chuva.



































quinta-feira, 8 de maio de 2014











mariam sitchinava














Que me quereis,
se me não dais
o que é tão meu?

eugénio de andrade









às vezes o silêncio ocupa todos os lugares e o coração. que não tem como falar. bate - os meses passam e eu ainda só - agora já aqui não estás e as paisagens de nada valem. nenhum olhar teu será destes montes. do verde musgo. do vento. vontade de ir céu adentro. para sempre - digo todos os nomes na esperança de que regresses. nenhuma palavra te tratá de volta. nenhum nome. nenhum corpo - quero gritar o teu corpo - com a cabeça no teu colo contavas-me segredos e eu prometia que não ia dizer a ninguém. desconfio que às vezes eram só histórias - quando assim estava. de olhos fechados. nenhum mundo me conhecia -















domingo, 27 de abril de 2014






mariam sitchinava















queria morrer contigo
não queria morrer de ti

prendi o amor nos meus braços
mas uma chuva de areia negra
cospe o meu sangue onde o coração

queria morrer contigo
contra o corpo limite do dia
arder praias onde o tempo acabava
começar Deus onde era o fim
não queria morrer de ti

a noite toda tem a espessura da perda
a boca beija o batimento da terra
o medo abraça-me

e ainda é tão tarde para que morramos os dois

pedro sena lino










todos os sábados à tarde. corpos por entre campas. limpando mármore. arranjando flores. acendendo lamparinas - chove. demoro-me entre túmulos. vejo rostos e nomes de mortos - assusta-me a dedicação dos vivos - algumas pessoas choram em redor de um túmulo coberto de ramos. a tua melhor amiga morreu há pouco. estarás com certeza à espera dela num pedaço de nuvem. reserva-lhe um lugar quente aí no céu - lembro-me de quando morreste e também a mim me apetece chorar - tantas vezes é como se ainda cá estivesses que nenhum sentido tem saber do teu corpo debaixo de terra. deitado na urna. já há quase quatro anos - um dia destes encontrei um retrato teu de quando eras nova. eras tão bonita. cabelos tão negros. tão bem apanhados. olhos verdazuis tão claros. corpo esbelto. eras tão só. foste a viúva mais nova que a aldeia conheceu -






terça-feira, 22 de abril de 2014











mariam sitchinava 





















Anda, vou-te mostrar a terra
dos teus pais, avós, antepassados
tão antigos que os podes escolher.
Este aqui é noé, de barba por fazer;
meteu na arca puro e impuro, bem e mal,
inventou o vinho, homem melhor
da sua geração ( não é grande elogio ),
teve filhos, netos, é de crer que morreu.
Estoutro, não sei bem, era pirata na malásia.
Vês as colinas? São tuas, quando
as olhas a direito. Realmente tuas,
parte de um mundo teu.
Sim, isso são filosofias,
tens razão. ( E tem graça ao ter razão ).
Anda daí, vou mostrar-te o colete de forças
onde era costume, sabes, tratar casos assim.

antónio franco alexandre 








tenho uma terrível afeição pelas coisas tristes. que fazem tremer a pele. doer o coração - às vezes corro forte céu fora. terra dentro. à procura do nome. do rosto. do homem - ninguém nunca me quis tanto como viver. tanto que a pele fuja. tanto que o corpo correndo me encontrasse - e dizer beleza com a boca torta. e pedir socorro já de corpo morto - sobre o que passa nada quero. sobre o que vem que o tempo cuide. que alguém tome conta e nota. que eu não me importo mais - vou e voou. 











terça-feira, 15 de abril de 2014






 ~
laura makabresku





quis-te tanto que gostei de mim!
Tu eras a que não serás sem mim!
Vivias de eu viver em ti
e mataste a vida que eu te dei
por não seres como eu te queria.
Eu vivia em ti o que em ti eu via.
E aquela que não será sem mim
tu viste-a como eu
e talvez para ti também
a única mulher que eu vi!

almada negreiros





lembro-me do seu rosto. nenhuma memória me incomoda tanto - o corpo corre monte acima. há folhas de eucalipto. musgo e pernas presas a heras. braço agarrado a elas - desaparece - o homem da minha infância morto num precipício. e a sua filha. de pele como a neve. chora - digo: não fiques triste. outro mundo vos espera - sempre acreditei noutros mundos. paralelos a este. onde é possível ser feliz. estar em paz - a miúda. branca. não me ouve. só às lágrimas grossas. queimando a pele - o corpo. agora estanque num pedaço de horizonte. sonha - queria contar-lhe das constelações mas sei que não iria ouvir - espero que anoiteça e sei do buraco negro. inteiro. para onde o homem da minha infância se atirou. foi como uma estrela que choveu -