sexta-feira, 4 de julho de 2014







lieke romeijn














'Abrace-me porque é o último 
abraço que me dá'
antónio lobo antunes










gostavas dos dias quentes. de nuvens brancas e pequenas. de amoras muito maduras – nos dias assim grandes acordavas-me cedo e íamos à procura de cores fortes. como quem parte para sempre. de mãos muito dadas. de corpo muito perto. eu a sentir o teu coração bater na minha mão – às vezes corríamos monte acima e ali ficávamos deitadas. assim perto do céu ouvem-se melhor os pássaros. percebe-se melhor o azul – e eu contava-te os meus sonhos: quero ser bailarina num circo com camiões maiores como o do tio quim. daqueles circos que têm animais assim grandes |abria os braços pequenos e era como se dentro deles coubesse o mundo inteiro|- tu sorrias – vou ter uma casa com prateleiras cheias de compotas – tu sorrias – no regresso colhíamos carquejas e ramos de eucalipto – nos dias grandes tinhas tanta vida e luz 

morreste num dia pequeno de dezembro. o teu corpo pequeno. feito dor. uma dor assim tão grande. do tamanho dos animais do circo que nunca vi - a certeza de que partias para sempre. com a bailarina que nunca fui e as compotas que nunca tive -











quinta-feira, 3 de julho de 2014













ezgi polat











Eu disse tudo, mas não no lugar certo.
Em cera e em metal, por mãos de gente
e estojos de veludo me deitei
e quantos me tiveram sabem quanto
amei e amo a foice do teu rosto,
os cinco ou mais sentidos que me dás.
Um sopro humano, a boca, um coração,
me tocam e alimentam, como antes
águas de chuva no lazer do pântano
quando o vento passava nos pinhais;
sou teu igual, não mais, e no meu corpo
inteiramente novo é que perdura
a liberdade, glória do teu canto.
Desejo meu, em tua sede habito;
meu mestre, escravo, amante, pois servimos
no mesmo chão o mesmo antigo lume.

antónio franco alexandre









é já julho e amadurecem amoras. o muro do caminho coberto de heras e ninhos de formigas. na serra dois pinheiros altos a prumo. nenhum ar corre - um milhafre sobrevoa a vinha - avó. nenhum mês se repete sem que te lembre. os teus olhos davam sentido ao que acontece. e é simples e pequeno mas com tanto dentro. tão imenso. tão sincero. tão nosso - os lugares tão verdes onde nos sentamos sob o calor dos dias longos. o teu cabelo branco muito enrolado ao caco da cabeça. os teus braços a ganhar cor e o teu avental de cornucópias com tantas surpresas no bolso - lembro-me tão bem daquele fim de tarde de julho. as duas aconchegadas no tronco da laranjeira a cobrir de cascas a erva seca. de tu dizeres que adoravas os dias assim quentes. que te faziam lembrar a tua mãe e eu a pedir: faz-me uma trança.avó - os teus dedos finos na pressa dos meus cabelos - tens um cabelo tão bonito. como as castanhas no mês dos teus anos - e eu a abraçar-te como se partisses . 
















terça-feira, 1 de julho de 2014









mariam sitchinava












visita-me enquanto eu não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com o teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores
vem

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulforosa dos espelhos
vem

antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro

perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água
vem

com teu sabor de açucar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-se

al berto





as voltas que dou à terra. sempre à procura de um ramo de árvore. um ninho de pássaro. uma nuvem baixa. um buraco mais fundo - o coração. a quem o mundo destinou males maiores. sabe hoje que é possível ser feliz. e até a boca. a quem outras línguas prometeram tudo. conhece a felicidade pela repetição do teu nome que. imagina. se confunde com o amor - 








quinta-feira, 26 de junho de 2014






laura makabresku












Fica esta noite, mais outra, o
 tempo que demora a cumprir a decisão de 
 amar-te. E vamos fazendo o curso dos dias 
 com algumas opiniões parecidas e ódios ás 
 coisas culpadas. A gente que diz coisas 
 de silencio, os andaimes da cidade tapando 
 saídas, as horas certas quando dizemos 
 adeus. E que sentido têm estas lágrimas? 
 Eu vivo neste ano e já me esqueço de mim, 
 apenas vou precisar amar-te, depressa

helder moura pereira





porque me fizeram mal deixei de acreditar no amor - impossível amar com um coração assim partido. e sempre esperei que uma nesga de luz lhe devolvesse vida - quando a noite chegava eu. que sempre questionei deus. rezava. com todas as minhas forças.  para que nenhum fantasma me impedisse o sono - quase morri - não acreditava que houvesse qualquer possibilidade de amar. de ser feliz. tudo me parecia tão longe - o meu corpo habituou-se de tal forma à sombra que a luz me cega a pele - compreenderás agora porque tudo me parece estranho. porque me espanto com o teu afeto - és feito de luz.








quarta-feira, 18 de junho de 2014










mariam sitchinava


























As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração

ruy belo










tu eras a árvore mais bonita da minha infância e enfim morreste - sem que to pudesse dizer - por ti passaram os anos e os pássaros. esperaste seca que a chuva voltasse. resististe a dilúvios e tempestades - em teus ramos prendemos tantos baloiços - de folhas verdes. pequenas. tocando o rio. assim te iam as primaveras - sempre preferiste os tempos quentes - às vezes no inverno. as águas subiam tanto que quase te afogavam. com medo nem dormias - estavas visivelmente cansada quando chegava da escola para te contar os meus segredos - a ti confiei o meu primeiro amor. gravei-o no teu tronco com a navalha que roubei ao meu pai. tinha oito anos - nunca falaste e ainda assim sempre tivemos grandes conversas - enfim morreste e contigo levaste memórias irrecuperáveis de mim. daquilo que sou - volta. 
















quinta-feira, 12 de junho de 2014








mariam sitchinava










 a faca não corta o fogo,
não me corta o sangue escrito,
não corta a água,
e quem não queria uma língua dentro da própria língua?
herberto helder















um sossego que parte quando a saudade é imensa - quero dizer à noite que todo o silêncio é meu. não sei com que voz. como dizer - digo baixinho que amor não é fogo. que coisas dessas. que assim incomodam o coração. são de água  - tão azul como a noite quando cai. mais fria. no céu. quando estrelas descem à terra e trazem alegria à pele - sou como faca. e só agora percebo porque 'a faca não corta o fogo'






















quarta-feira, 11 de junho de 2014











laura makabresku



















Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida – e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe
a força maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.

herberto helder










era tudo tão verde quando sorrias. à tua passagem fendas em rochas abriam e flores nasciam. para te fazer sombra todas as árvores te seguiam - eu fechava os olhos e sabia que toda a natureza existia pela tua vida - florestas do norte. praias de ocidente. afluentes de rio. copas de pinheiros... - e toda a terra onde nos deitamos se repete - a cada estação o teu corpo volta. ungido de memória. peito feito à vida - queria para ti um país verde escuro. com planícies onde descansar os sonhos. noites e terras grandes com vista para estrelas de nome próprio -