segunda-feira, 7 de julho de 2014







ezgi polat












Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo 


Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

sophia de mello breyner andresen











o grito é de quem o dá ou de quem o ouve - como se o futuro fosse este silêncio imenso onde o teu corpo desaparece. ou um caminho coberto de silvas e árvores novas a dar para um rio de águas bravas e peixes pequenos. ou um céu muito azul que se despe lentamente de nuvens - interrompo o silêncio para descrever o voo do pássaro. de bico em riste contra as folhas - e tudo passa - e construir um futuro onde o medo não dure. 









sexta-feira, 4 de julho de 2014







lieke romeijn














'Abrace-me porque é o último 
abraço que me dá'
antónio lobo antunes










gostavas dos dias quentes. de nuvens brancas e pequenas. de amoras muito maduras – nos dias assim grandes acordavas-me cedo e íamos à procura de cores fortes. como quem parte para sempre. de mãos muito dadas. de corpo muito perto. eu a sentir o teu coração bater na minha mão – às vezes corríamos monte acima e ali ficávamos deitadas. assim perto do céu ouvem-se melhor os pássaros. percebe-se melhor o azul – e eu contava-te os meus sonhos: quero ser bailarina num circo com camiões maiores como o do tio quim. daqueles circos que têm animais assim grandes |abria os braços pequenos e era como se dentro deles coubesse o mundo inteiro|- tu sorrias – vou ter uma casa com prateleiras cheias de compotas – tu sorrias – no regresso colhíamos carquejas e ramos de eucalipto – nos dias grandes tinhas tanta vida e luz 

morreste num dia pequeno de dezembro. o teu corpo pequeno. feito dor. uma dor assim tão grande. do tamanho dos animais do circo que nunca vi - a certeza de que partias para sempre. com a bailarina que nunca fui e as compotas que nunca tive -











quinta-feira, 3 de julho de 2014













ezgi polat











Eu disse tudo, mas não no lugar certo.
Em cera e em metal, por mãos de gente
e estojos de veludo me deitei
e quantos me tiveram sabem quanto
amei e amo a foice do teu rosto,
os cinco ou mais sentidos que me dás.
Um sopro humano, a boca, um coração,
me tocam e alimentam, como antes
águas de chuva no lazer do pântano
quando o vento passava nos pinhais;
sou teu igual, não mais, e no meu corpo
inteiramente novo é que perdura
a liberdade, glória do teu canto.
Desejo meu, em tua sede habito;
meu mestre, escravo, amante, pois servimos
no mesmo chão o mesmo antigo lume.

antónio franco alexandre









é já julho e amadurecem amoras. o muro do caminho coberto de heras e ninhos de formigas. na serra dois pinheiros altos a prumo. nenhum ar corre - um milhafre sobrevoa a vinha - avó. nenhum mês se repete sem que te lembre. os teus olhos davam sentido ao que acontece. e é simples e pequeno mas com tanto dentro. tão imenso. tão sincero. tão nosso - os lugares tão verdes onde nos sentamos sob o calor dos dias longos. o teu cabelo branco muito enrolado ao caco da cabeça. os teus braços a ganhar cor e o teu avental de cornucópias com tantas surpresas no bolso - lembro-me tão bem daquele fim de tarde de julho. as duas aconchegadas no tronco da laranjeira a cobrir de cascas a erva seca. de tu dizeres que adoravas os dias assim quentes. que te faziam lembrar a tua mãe e eu a pedir: faz-me uma trança.avó - os teus dedos finos na pressa dos meus cabelos - tens um cabelo tão bonito. como as castanhas no mês dos teus anos - e eu a abraçar-te como se partisses . 
















terça-feira, 1 de julho de 2014









mariam sitchinava












visita-me enquanto eu não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com o teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores
vem

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulforosa dos espelhos
vem

antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro

perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água
vem

com teu sabor de açucar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-se

al berto





as voltas que dou à terra. sempre à procura de um ramo de árvore. um ninho de pássaro. uma nuvem baixa. um buraco mais fundo - o coração. a quem o mundo destinou males maiores. sabe hoje que é possível ser feliz. e até a boca. a quem outras línguas prometeram tudo. conhece a felicidade pela repetição do teu nome que. imagina. se confunde com o amor - 








quinta-feira, 26 de junho de 2014






laura makabresku












Fica esta noite, mais outra, o
 tempo que demora a cumprir a decisão de 
 amar-te. E vamos fazendo o curso dos dias 
 com algumas opiniões parecidas e ódios ás 
 coisas culpadas. A gente que diz coisas 
 de silencio, os andaimes da cidade tapando 
 saídas, as horas certas quando dizemos 
 adeus. E que sentido têm estas lágrimas? 
 Eu vivo neste ano e já me esqueço de mim, 
 apenas vou precisar amar-te, depressa

helder moura pereira





porque me fizeram mal deixei de acreditar no amor - impossível amar com um coração assim partido. e sempre esperei que uma nesga de luz lhe devolvesse vida - quando a noite chegava eu. que sempre questionei deus. rezava. com todas as minhas forças.  para que nenhum fantasma me impedisse o sono - quase morri - não acreditava que houvesse qualquer possibilidade de amar. de ser feliz. tudo me parecia tão longe - o meu corpo habituou-se de tal forma à sombra que a luz me cega a pele - compreenderás agora porque tudo me parece estranho. porque me espanto com o teu afeto - és feito de luz.








quarta-feira, 18 de junho de 2014










mariam sitchinava


























As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração

ruy belo










tu eras a árvore mais bonita da minha infância e enfim morreste - sem que to pudesse dizer - por ti passaram os anos e os pássaros. esperaste seca que a chuva voltasse. resististe a dilúvios e tempestades - em teus ramos prendemos tantos baloiços - de folhas verdes. pequenas. tocando o rio. assim te iam as primaveras - sempre preferiste os tempos quentes - às vezes no inverno. as águas subiam tanto que quase te afogavam. com medo nem dormias - estavas visivelmente cansada quando chegava da escola para te contar os meus segredos - a ti confiei o meu primeiro amor. gravei-o no teu tronco com a navalha que roubei ao meu pai. tinha oito anos - nunca falaste e ainda assim sempre tivemos grandes conversas - enfim morreste e contigo levaste memórias irrecuperáveis de mim. daquilo que sou - volta. 
















quinta-feira, 12 de junho de 2014








mariam sitchinava










 a faca não corta o fogo,
não me corta o sangue escrito,
não corta a água,
e quem não queria uma língua dentro da própria língua?
herberto helder















um sossego que parte quando a saudade é imensa - quero dizer à noite que todo o silêncio é meu. não sei com que voz. como dizer - digo baixinho que amor não é fogo. que coisas dessas. que assim incomodam o coração. são de água  - tão azul como a noite quando cai. mais fria. no céu. quando estrelas descem à terra e trazem alegria à pele - sou como faca. e só agora percebo porque 'a faca não corta o fogo'