sexta-feira, 18 de julho de 2014










laina briedis



















"(...) Há anos que eu andava a ver se conseguia dormir assim sozinho no deserto. Mas de facto nunca viajava completamente sozinho e nunca tinha querido, também, impor uma escala assim despropositada aos meus companheiros de viagens. Estava agora ali, afastado um pouco da fogueira, a fixar aquele círculo de chão iluminado, a aferir a gradação do limite entre a substância do palpável e a vastidão compacta da noite. A adequação dos sentidos: a vista, durante o dia, o ouvido, agora. O silvo discreto das torrentes da brisa, dos canais do vento. Qualquer ruído acrescentado a estes, uma folha de capim cedendo ao rastejar de algum mínimo réptil, o indeciso progredir de algum insecto escuso, estava o alerta disparado e em guarda, indiferente contudo ao choro dos chacais. Assente e a sós na caixa do silêncio. O vento, só. Não chegas a saber se o das correntes de ar ou só aquele que a Terra há-de soprar embrulhada no curso da rotação que a leva. E há um rumor de estrelas a que por vezes, de súbito, se acrescenta o grito, sideral, de algum astro candente. E o permanente caudal , que sempre entendi de esperma, da via láctea, suspensão morosa na uterina fluidez da noite. Até que a lua nasce a confirmar contornos guardados intactos pela minha vigília. (...)"


ruy carvalho













queria um mundo que não existe. com silêncios enormes e palavras baixas. e uma luz assim grande na pele. a queimar quase o osso - em alarme reparo que a vida abandona os sonhos e com a idade os nomes perdem rosto - que me não deixem esquecer quem amei. que esta memória nunca me falhe e tudo seja a certeza de um dia claro.uma corrente de ar frio no pescoço e pele de galinha - o coração também lembra. e a memória das artérias é mais forte que o cérebro - quero um amor que não existe. com árvores densas e um areal imenso a perder de vista. uma linha de mar ao fundo e a certeza de que se pode ser feliz sem mundo - 



















terça-feira, 15 de julho de 2014









mariam sitchinava





















Alguém joga uma pedra
no ar como uma fato não
fato mas aparência
fato a flutuar nos vácuos
Ser existencial cego
talvez não possa ocorrer
nunca se sabe nada
com certeza absoluta
das coisas existentes

susan howe










 ficava a ouvir os sapos e as rãs. a saber dos morcegos escondidos na gruta onde nascia a água - a poça tinha um fundo muito verde de lodo e musgo e animais pequenos escondidos nas ervas. sempre tive medo de lá entrar - às vezes as libelinhas abeiravam-se de mim. muito negras. às voltas nos meus cabelos. e eu inquieta com os olhos muito grandes a adivinhar-lhes o voo - os pássaros comem as nuvens. por isso é que as nuvens desaparecem e os dias ficam claros. o tempo só é assim bom porque os pássaros deixam - tu rias alto e assustavas os girinos que a custo tinha apanhado - de noite nasciam pirilampos na poça e uma luz muito verde interrompia o escuro. pedia-te tantas vezes que me levasses a ver os pirilampos e tu lá ias. de mão muito dada à minha - às vezes com os pés dentro de água. tudo muito escuro. e eu com medo que os bichos me comessem as pernas - olha avó. caiu uma estrela do céu - 












segunda-feira, 14 de julho de 2014































laura makabresku


























morte, minha materna morte: faz-me o poema onde aprenda a morrer, e,
num texto corpo de silêncio, cria comigo o amor

pedro sena-lino





















outros dias há em que o coração sem casa. desesperado.  procura - que uma razão de vida me alcance agora que de nenhuma esperança se faz este futuro - aprendi contigo uma vida que já não existe. ensinaste-me um mundo que já não é meu - avó. nunca me disseste como se vive na ânsia do abraço que não se deu - quando estou assim triste e não encontro nenhum horizonte onde te imaginar feliz. nenhuma nuvem onde pousar a cabeça. encolho o corpo e fico a pedir ao deus. aos deuses. a todos os santos a quem dedicaste todos os dias. que me venhas abraçar só por um segundo - a minha pele está tão fria. os meus lábios tão secos. quero que me leves para perto de ti e me abraces tanto que o meu corpo desapareça - só tu sabias como dói o mundo quando as manhãs tão claras se fazem de lágrimas e não permitias que ninguém mo impedisse. como se a tristeza fosse a certeza de uma beleza que não há - trago comigo a violência do mundo e a dor de quem sabe que não há regressos - leva-me pela mão até ao penhasco. aperta-me o peito até ao grito



















laina briedis



















Quando eu morrer voltarei para buscar
os instantes que não vivi junto do mar

sophia de mello breyner







dizia-te: tenho medo do escuro - o que ali há de noite é o mesmo que de dia. um campo grande. verde. rodeado de choupos - um dia. enchi o peito de ar. e na coragem de uma noite quente de verão. corri campo fora. noite dentro. as ervas a cortarem as pernas. algumas mais altas nos braços. a pele muito morna - deitei-me perto dos choupos. a erva estava fria. ali fiquei de peito feito ao medo. que nenhum escuro me assuste. que nada me espante - contei algumas estrelas. eram tantas. depois voltei devagar para casa. foi quando vi pela primeira vez a coruja - 

tenho medo-












terça-feira, 8 de julho de 2014









lieke romeijn

















Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

sophia de mello breyner andresen










que nem um amor te encontre:assim cantavam as velhas na soleira da porta mais antiga que conhecemos - olhavas para mim sorrindo. seguravas a minha mão como quem fica - ao início da tarde uma lagartixa atravessa o terraço e vai abeirar-se de um charco quieto à sombra - era uma vez uma menina pequena. tão pequena que te cabia no bolso do vestido. contava muitas histórias de meninos e meninas felizes mas ninguém ouvia. da sua boca pequena uma voz muito baixa. como um segredo - cheiro a terra seca e o sol alto. forte. pousa nos ramos das árvores de fruto - o cão aninha-se nas minhas pernas: que calor. que calor - sai cão. sai - e o cão corre. grito: dia-man-ti-no - só uma nuvem muito branca interrompe o azul. já quase noite outras vêm juntar-se a ela - tenho frio - pousas uma mantinha de linho nas minhas costas e chegas-me para ti. ficamos assim. muito encostadas. a ouvir cantar os grilos - quero pedir-te que não morras e se morreres. promete que me vens abraçar de vez em quando - sorris e aproximas a tua boca do meu ouvido: como um segredo -














segunda-feira, 7 de julho de 2014







ezgi polat












Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo 


Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

sophia de mello breyner andresen











o grito é de quem o dá ou de quem o ouve - como se o futuro fosse este silêncio imenso onde o teu corpo desaparece. ou um caminho coberto de silvas e árvores novas a dar para um rio de águas bravas e peixes pequenos. ou um céu muito azul que se despe lentamente de nuvens - interrompo o silêncio para descrever o voo do pássaro. de bico em riste contra as folhas - e tudo passa - e construir um futuro onde o medo não dure. 









sexta-feira, 4 de julho de 2014







lieke romeijn














'Abrace-me porque é o último 
abraço que me dá'
antónio lobo antunes










gostavas dos dias quentes. de nuvens brancas e pequenas. de amoras muito maduras – nos dias assim grandes acordavas-me cedo e íamos à procura de cores fortes. como quem parte para sempre. de mãos muito dadas. de corpo muito perto. eu a sentir o teu coração bater na minha mão – às vezes corríamos monte acima e ali ficávamos deitadas. assim perto do céu ouvem-se melhor os pássaros. percebe-se melhor o azul – e eu contava-te os meus sonhos: quero ser bailarina num circo com camiões maiores como o do tio quim. daqueles circos que têm animais assim grandes |abria os braços pequenos e era como se dentro deles coubesse o mundo inteiro|- tu sorrias – vou ter uma casa com prateleiras cheias de compotas – tu sorrias – no regresso colhíamos carquejas e ramos de eucalipto – nos dias grandes tinhas tanta vida e luz 

morreste num dia pequeno de dezembro. o teu corpo pequeno. feito dor. uma dor assim tão grande. do tamanho dos animais do circo que nunca vi - a certeza de que partias para sempre. com a bailarina que nunca fui e as compotas que nunca tive -