sábado, 2 de agosto de 2014











laura makabresku




















O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...

São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.

São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.

fernando pessoa







na minha boca cresce esse silêncio imenso - tanto te quis dizer que o coração parou - às vezes falo comigo. tanto. tão depressa. tão alto. que nem sei se o mundo saberá de todos esses segredos que guardo há anos - tu és o meu segredo mais bem guardado. vives por dentro da minha pele. do lado esquerdo do peito. vou-te alimentando de gestos - de ti nunca falei. nem comigo. nem baixinho. nem ao ouvido de alguém - és um segredo que nunca direi porque não existes agora. nunca mais - o que de nós ficou foi só esperança. futuro próximo. inquietação - quando fecho os olhos. consigo ver-nos muito quietos. muito dados um ao outro. fazendo casa na escuridão - nenhuma casa é nossa nem agora. nem nunca. nenhum sentimento nos conhece. nenhum outro coração - teu corpo é uma memória. 

















quinta-feira, 31 de julho de 2014













ezgi polat


























Quase morrera era ainda tarde
Aqui é o coração à volta os pulmões
por dentro a visão ignora
as correntes O sangue leva a memória
que péssima memória diziam
A memória ilumina a visão por fora
uma concentração demasiada
Ali é o corpo quase caíra
Repito: a morte é sempre técnica
e bela

manuel fernando gonçalves








todas as noites na mesma noite. nenhum dia volta. a nenhuma luz regressa agora o corpo. preso à luz de estrelas que não existem - até desaparecer - acredito que o mundo é o espaço de tempo que dura uma vida - a tua foi longa. uma longa história de amor - ainda me lembro de me dizeres das flores o cheiro. de me contares os dias. de como eram feitas as estações - quando chovia corrias a ver as nuvens. céu fora - tenho saudades de te ver dormir. descansada - de te ver rezar pela noitinha com as mãos dadas - todos os lugares são teus mesmo que os não habites. desde sempre. para sempre - esta casa que te viu. todas as casas que te viram passar para a missa. todos os domingos. todos os caminhos. são teus - hoje à tardinha dei com as chaves do teu caixão dentro de um envelope. que a terra te guarde bem. que os tempos te recordem mais nova - não quero que te recordem como estás na fotografia da lápide. com o conjunto azul e a camisa branca. cabelo muito arranjado. e os sapatos pretos de verniz - lembro-te alegre em excursões sempre cheias de gente mais velha - acompanhei-te em tantas viagens. lembro-me vagamente do pai ir connosco a Santiago de Compostela. de uma avenida estreita. muita gente a passar por nós. eu às carrachulas do pai e  tu um pouco mais atrás carregando as cestas da merenda. o saco de farturas e as pipocas - sempre fui contigo. até quando já não podias ir. até onde nunca fomos -  não posso esquecer-te. o teu lugar está vazio. o cantinho do sofá onde sempre te sentavas a contar-me histórias. o velho e baixo sofá que te dava dores nos joelhos. a lata onde guardavas as bolachas está escondida no armário. ainda cheia. ainda tua. as bolachas já moles e partidas - está muito frio aqui dentro - e deito-me no lugar da cama onde gostavas de ficar. abraço-te. avó. não posso chorar - nunca saíste da ibéria e ainda assim trazias todo o amor do mundo nas mãos. da varanda sonhavas mundos. outros. conhecias o "luxemburgo". como tu lhe chamavas. falavas com os pássaros. contavam-te de todas as migrações - o teu nome é agora um pedaço de terra que trago na boca











































segunda-feira, 28 de julho de 2014









laina briedis

















A vida é uma coisa a que me habituei 
adeus susto e absurdo e sobressalto e espanto 
ruy belo












o que não se diz. com medo que o corpo não respeite a boca. fica para doer - às vezes andamos a vida toda a não dizer o que o corpo quer. e dói tanto - a vida passa tão depressa. as estações tão curtas. o tempo tão rápido e o silêncio tão longo a bater-nos no corpo - somos dois ramos de uma mesma árvore. conhecemos o voo de todos os pássaros. sabemos das estações pela cor dos nossos braços e do vento pela instabilidade do corpo. mas nunca nos tocamos 















quinta-feira, 24 de julho de 2014

































laura makabresku




















ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte
vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer – vai por esse campo
de crateras extintas – vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite
deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo – deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração

al berto







silêncio. terra na boca. e um muro tão alto que o corpo todo esticado - uma árvore velha ao fundo e tu muito quieto. corpo tombado para a frente. rosto perdido de verde - não partas nunca mais. nem em fotografias. que esta memória seja sempre minha. meu corpo assim pequeno. o muro assim alto. o tombo assim grande e a terra assim amarga - quando era pequena os tombos eram grandes mas o corpo nem doía. agora não -





















quarta-feira, 23 de julho de 2014










mariam sitchinava 


















Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos

mário cesariny










esse amor sem juízo. como grito no corpo. não existe - esta constatação é como um golpe preciso. certeiro no peito - às vezes certeza absoluta. outras dúvida amarga - enquanto o amor me quiser e a esperança for essa luz de fim de tarde. quase noite. quase estrela. quase abraço - de 'quases' se faz agora a vida e o mundo. como se no princípio deus tivesse dito: 'tornou adão quase a conhecer sua mulher. e ela quase deu à luz um filho' e assim morresse toda a humanidade - 

















terça-feira, 22 de julho de 2014










valentin chenaille
















O que a memória ama, fica eterno.
Te amo com a memória, imperecível.
adélia prado












o que não dei. com medo que tudo o que sou desapareça. é teu - o verão assim quente. o caminho para casa. os grilos no terraço. a luz de fim tarde. as dores no joelho. os olhos da avó. tudo o que não partilhei com medo que morresse. é teu - e este corpo. pele e osso. que só o norte conhece. é teu - e todos os silêncios que a boca reserva. como segredos que ninguém conta. são teus - os sonhos que tive. os amigos que perdi. o perdão que não dei. tudo o que dói. é também teu - este amor tão sem jeito. imperfeito. como nuvem no peito. é teu - às vezes também chove. é quando os meus olhos te pedem que me abraces e o corpo todo quieto










segunda-feira, 21 de julho de 2014








elif karakoc



















Quanta tara, quanto vício
Quanto enfarte do miocárdio
Quanto medo, quanto pranto
Quanta paixão, quanto luto!...
Tudo isso pelo encanto
Desse beijo de um minuto:
Desse beijo de um minuto
Mas que cria, em seu transporte
De um minuto, a eternidade
E a vida, de tanta morte.

vinicius de moraes













como uma memória à margem de qualquer desassossego - por um acaso de timidez o corpo como morto. à espera que num golpe de asa o pássaro ali se firme para sempre  - a boca espera o silêncio certo para fugir. é quando as mãos se prendem à cintura e o corpo permanece na inquietação dos dias ímpares -  teus lábios procuram um pedaço de pele onde largar o beijo - uma calma que o peito não conhece. depressa como se o partisse. enquanto o pássaro me debica o coração -


















sexta-feira, 18 de julho de 2014










laina briedis



















"(...) Há anos que eu andava a ver se conseguia dormir assim sozinho no deserto. Mas de facto nunca viajava completamente sozinho e nunca tinha querido, também, impor uma escala assim despropositada aos meus companheiros de viagens. Estava agora ali, afastado um pouco da fogueira, a fixar aquele círculo de chão iluminado, a aferir a gradação do limite entre a substância do palpável e a vastidão compacta da noite. A adequação dos sentidos: a vista, durante o dia, o ouvido, agora. O silvo discreto das torrentes da brisa, dos canais do vento. Qualquer ruído acrescentado a estes, uma folha de capim cedendo ao rastejar de algum mínimo réptil, o indeciso progredir de algum insecto escuso, estava o alerta disparado e em guarda, indiferente contudo ao choro dos chacais. Assente e a sós na caixa do silêncio. O vento, só. Não chegas a saber se o das correntes de ar ou só aquele que a Terra há-de soprar embrulhada no curso da rotação que a leva. E há um rumor de estrelas a que por vezes, de súbito, se acrescenta o grito, sideral, de algum astro candente. E o permanente caudal , que sempre entendi de esperma, da via láctea, suspensão morosa na uterina fluidez da noite. Até que a lua nasce a confirmar contornos guardados intactos pela minha vigília. (...)"


ruy carvalho













queria um mundo que não existe. com silêncios enormes e palavras baixas. e uma luz assim grande na pele. a queimar quase o osso - em alarme reparo que a vida abandona os sonhos e com a idade os nomes perdem rosto - que me não deixem esquecer quem amei. que esta memória nunca me falhe e tudo seja a certeza de um dia claro.uma corrente de ar frio no pescoço e pele de galinha - o coração também lembra. e a memória das artérias é mais forte que o cérebro - quero um amor que não existe. com árvores densas e um areal imenso a perder de vista. uma linha de mar ao fundo e a certeza de que se pode ser feliz sem mundo - 



















terça-feira, 15 de julho de 2014









mariam sitchinava





















Alguém joga uma pedra
no ar como uma fato não
fato mas aparência
fato a flutuar nos vácuos
Ser existencial cego
talvez não possa ocorrer
nunca se sabe nada
com certeza absoluta
das coisas existentes

susan howe










 ficava a ouvir os sapos e as rãs. a saber dos morcegos escondidos na gruta onde nascia a água - a poça tinha um fundo muito verde de lodo e musgo e animais pequenos escondidos nas ervas. sempre tive medo de lá entrar - às vezes as libelinhas abeiravam-se de mim. muito negras. às voltas nos meus cabelos. e eu inquieta com os olhos muito grandes a adivinhar-lhes o voo - os pássaros comem as nuvens. por isso é que as nuvens desaparecem e os dias ficam claros. o tempo só é assim bom porque os pássaros deixam - tu rias alto e assustavas os girinos que a custo tinha apanhado - de noite nasciam pirilampos na poça e uma luz muito verde interrompia o escuro. pedia-te tantas vezes que me levasses a ver os pirilampos e tu lá ias. de mão muito dada à minha - às vezes com os pés dentro de água. tudo muito escuro. e eu com medo que os bichos me comessem as pernas - olha avó. caiu uma estrela do céu - 












segunda-feira, 14 de julho de 2014































laura makabresku


























morte, minha materna morte: faz-me o poema onde aprenda a morrer, e,
num texto corpo de silêncio, cria comigo o amor

pedro sena-lino





















outros dias há em que o coração sem casa. desesperado.  procura - que uma razão de vida me alcance agora que de nenhuma esperança se faz este futuro - aprendi contigo uma vida que já não existe. ensinaste-me um mundo que já não é meu - avó. nunca me disseste como se vive na ânsia do abraço que não se deu - quando estou assim triste e não encontro nenhum horizonte onde te imaginar feliz. nenhuma nuvem onde pousar a cabeça. encolho o corpo e fico a pedir ao deus. aos deuses. a todos os santos a quem dedicaste todos os dias. que me venhas abraçar só por um segundo - a minha pele está tão fria. os meus lábios tão secos. quero que me leves para perto de ti e me abraces tanto que o meu corpo desapareça - só tu sabias como dói o mundo quando as manhãs tão claras se fazem de lágrimas e não permitias que ninguém mo impedisse. como se a tristeza fosse a certeza de uma beleza que não há - trago comigo a violência do mundo e a dor de quem sabe que não há regressos - leva-me pela mão até ao penhasco. aperta-me o peito até ao grito



















laina briedis



















Quando eu morrer voltarei para buscar
os instantes que não vivi junto do mar

sophia de mello breyner







dizia-te: tenho medo do escuro - o que ali há de noite é o mesmo que de dia. um campo grande. verde. rodeado de choupos - um dia. enchi o peito de ar. e na coragem de uma noite quente de verão. corri campo fora. noite dentro. as ervas a cortarem as pernas. algumas mais altas nos braços. a pele muito morna - deitei-me perto dos choupos. a erva estava fria. ali fiquei de peito feito ao medo. que nenhum escuro me assuste. que nada me espante - contei algumas estrelas. eram tantas. depois voltei devagar para casa. foi quando vi pela primeira vez a coruja - 

tenho medo-












terça-feira, 8 de julho de 2014









lieke romeijn

















Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

sophia de mello breyner andresen










que nem um amor te encontre:assim cantavam as velhas na soleira da porta mais antiga que conhecemos - olhavas para mim sorrindo. seguravas a minha mão como quem fica - ao início da tarde uma lagartixa atravessa o terraço e vai abeirar-se de um charco quieto à sombra - era uma vez uma menina pequena. tão pequena que te cabia no bolso do vestido. contava muitas histórias de meninos e meninas felizes mas ninguém ouvia. da sua boca pequena uma voz muito baixa. como um segredo - cheiro a terra seca e o sol alto. forte. pousa nos ramos das árvores de fruto - o cão aninha-se nas minhas pernas: que calor. que calor - sai cão. sai - e o cão corre. grito: dia-man-ti-no - só uma nuvem muito branca interrompe o azul. já quase noite outras vêm juntar-se a ela - tenho frio - pousas uma mantinha de linho nas minhas costas e chegas-me para ti. ficamos assim. muito encostadas. a ouvir cantar os grilos - quero pedir-te que não morras e se morreres. promete que me vens abraçar de vez em quando - sorris e aproximas a tua boca do meu ouvido: como um segredo -














segunda-feira, 7 de julho de 2014







ezgi polat












Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo 


Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

sophia de mello breyner andresen











o grito é de quem o dá ou de quem o ouve - como se o futuro fosse este silêncio imenso onde o teu corpo desaparece. ou um caminho coberto de silvas e árvores novas a dar para um rio de águas bravas e peixes pequenos. ou um céu muito azul que se despe lentamente de nuvens - interrompo o silêncio para descrever o voo do pássaro. de bico em riste contra as folhas - e tudo passa - e construir um futuro onde o medo não dure. 









sexta-feira, 4 de julho de 2014







lieke romeijn














'Abrace-me porque é o último 
abraço que me dá'
antónio lobo antunes










gostavas dos dias quentes. de nuvens brancas e pequenas. de amoras muito maduras – nos dias assim grandes acordavas-me cedo e íamos à procura de cores fortes. como quem parte para sempre. de mãos muito dadas. de corpo muito perto. eu a sentir o teu coração bater na minha mão – às vezes corríamos monte acima e ali ficávamos deitadas. assim perto do céu ouvem-se melhor os pássaros. percebe-se melhor o azul – e eu contava-te os meus sonhos: quero ser bailarina num circo com camiões maiores como o do tio quim. daqueles circos que têm animais assim grandes |abria os braços pequenos e era como se dentro deles coubesse o mundo inteiro|- tu sorrias – vou ter uma casa com prateleiras cheias de compotas – tu sorrias – no regresso colhíamos carquejas e ramos de eucalipto – nos dias grandes tinhas tanta vida e luz 

morreste num dia pequeno de dezembro. o teu corpo pequeno. feito dor. uma dor assim tão grande. do tamanho dos animais do circo que nunca vi - a certeza de que partias para sempre. com a bailarina que nunca fui e as compotas que nunca tive -











quinta-feira, 3 de julho de 2014













ezgi polat











Eu disse tudo, mas não no lugar certo.
Em cera e em metal, por mãos de gente
e estojos de veludo me deitei
e quantos me tiveram sabem quanto
amei e amo a foice do teu rosto,
os cinco ou mais sentidos que me dás.
Um sopro humano, a boca, um coração,
me tocam e alimentam, como antes
águas de chuva no lazer do pântano
quando o vento passava nos pinhais;
sou teu igual, não mais, e no meu corpo
inteiramente novo é que perdura
a liberdade, glória do teu canto.
Desejo meu, em tua sede habito;
meu mestre, escravo, amante, pois servimos
no mesmo chão o mesmo antigo lume.

antónio franco alexandre









é já julho e amadurecem amoras. o muro do caminho coberto de heras e ninhos de formigas. na serra dois pinheiros altos a prumo. nenhum ar corre - um milhafre sobrevoa a vinha - avó. nenhum mês se repete sem que te lembre. os teus olhos davam sentido ao que acontece. e é simples e pequeno mas com tanto dentro. tão imenso. tão sincero. tão nosso - os lugares tão verdes onde nos sentamos sob o calor dos dias longos. o teu cabelo branco muito enrolado ao caco da cabeça. os teus braços a ganhar cor e o teu avental de cornucópias com tantas surpresas no bolso - lembro-me tão bem daquele fim de tarde de julho. as duas aconchegadas no tronco da laranjeira a cobrir de cascas a erva seca. de tu dizeres que adoravas os dias assim quentes. que te faziam lembrar a tua mãe e eu a pedir: faz-me uma trança.avó - os teus dedos finos na pressa dos meus cabelos - tens um cabelo tão bonito. como as castanhas no mês dos teus anos - e eu a abraçar-te como se partisses . 
















terça-feira, 1 de julho de 2014









mariam sitchinava












visita-me enquanto eu não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com o teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores
vem

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulforosa dos espelhos
vem

antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro

perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água
vem

com teu sabor de açucar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-se

al berto





as voltas que dou à terra. sempre à procura de um ramo de árvore. um ninho de pássaro. uma nuvem baixa. um buraco mais fundo - o coração. a quem o mundo destinou males maiores. sabe hoje que é possível ser feliz. e até a boca. a quem outras línguas prometeram tudo. conhece a felicidade pela repetição do teu nome que. imagina. se confunde com o amor - 








quinta-feira, 26 de junho de 2014






laura makabresku












Fica esta noite, mais outra, o
 tempo que demora a cumprir a decisão de 
 amar-te. E vamos fazendo o curso dos dias 
 com algumas opiniões parecidas e ódios ás 
 coisas culpadas. A gente que diz coisas 
 de silencio, os andaimes da cidade tapando 
 saídas, as horas certas quando dizemos 
 adeus. E que sentido têm estas lágrimas? 
 Eu vivo neste ano e já me esqueço de mim, 
 apenas vou precisar amar-te, depressa

helder moura pereira





porque me fizeram mal deixei de acreditar no amor - impossível amar com um coração assim partido. e sempre esperei que uma nesga de luz lhe devolvesse vida - quando a noite chegava eu. que sempre questionei deus. rezava. com todas as minhas forças.  para que nenhum fantasma me impedisse o sono - quase morri - não acreditava que houvesse qualquer possibilidade de amar. de ser feliz. tudo me parecia tão longe - o meu corpo habituou-se de tal forma à sombra que a luz me cega a pele - compreenderás agora porque tudo me parece estranho. porque me espanto com o teu afeto - és feito de luz.








quarta-feira, 18 de junho de 2014










mariam sitchinava


























As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração

ruy belo










tu eras a árvore mais bonita da minha infância e enfim morreste - sem que to pudesse dizer - por ti passaram os anos e os pássaros. esperaste seca que a chuva voltasse. resististe a dilúvios e tempestades - em teus ramos prendemos tantos baloiços - de folhas verdes. pequenas. tocando o rio. assim te iam as primaveras - sempre preferiste os tempos quentes - às vezes no inverno. as águas subiam tanto que quase te afogavam. com medo nem dormias - estavas visivelmente cansada quando chegava da escola para te contar os meus segredos - a ti confiei o meu primeiro amor. gravei-o no teu tronco com a navalha que roubei ao meu pai. tinha oito anos - nunca falaste e ainda assim sempre tivemos grandes conversas - enfim morreste e contigo levaste memórias irrecuperáveis de mim. daquilo que sou - volta. 
















quinta-feira, 12 de junho de 2014








mariam sitchinava










 a faca não corta o fogo,
não me corta o sangue escrito,
não corta a água,
e quem não queria uma língua dentro da própria língua?
herberto helder















um sossego que parte quando a saudade é imensa - quero dizer à noite que todo o silêncio é meu. não sei com que voz. como dizer - digo baixinho que amor não é fogo. que coisas dessas. que assim incomodam o coração. são de água  - tão azul como a noite quando cai. mais fria. no céu. quando estrelas descem à terra e trazem alegria à pele - sou como faca. e só agora percebo porque 'a faca não corta o fogo'






















quarta-feira, 11 de junho de 2014











laura makabresku



















Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida – e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe
a força maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.

herberto helder










era tudo tão verde quando sorrias. à tua passagem fendas em rochas abriam e flores nasciam. para te fazer sombra todas as árvores te seguiam - eu fechava os olhos e sabia que toda a natureza existia pela tua vida - florestas do norte. praias de ocidente. afluentes de rio. copas de pinheiros... - e toda a terra onde nos deitamos se repete - a cada estação o teu corpo volta. ungido de memória. peito feito à vida - queria para ti um país verde escuro. com planícies onde descansar os sonhos. noites e terras grandes com vista para estrelas de nome próprio -