segunda-feira, 1 de setembro de 2014







nastya kaletkina














às vezes
sinto que perdi os teus melhores anos

os melhores
são aqueles em que entendemos as coisas
pela metade

meia ciência sobre uma planta
metade do Homero lido
meio sonho numa caminhada ao entardecer
meio futuro envolvido em mistério
por não se entender metade
do passado

agora tudo fica difícil
entre nós

porque eu sei como Ulisses regressou
e tu tens o teu jardim
feito de tantas orquídeas como amantes
e todos floriram
quando deveriam florir
e morreram
quando deveriam morrer

mas eu posso dar-te a minha mão
e levar-te a comer os pêssegos onde eles
crescem pela primeira vez

e o reino não morrerá porque teremos a memória
das nossas mãos dadas e eternas
na noite iluminada anel por anel

se ainda quiseres
meu amor

fazer meio caminho até mim

mário osório














pirilampos são como girinos. existem no mundo para me lembrar de ti - e se fechar os olhos. muito bem fechados. recordo quando os caçava. pirilampos com um olho fechado. girinos com uma meia de vidro - não sei que metade de ti ainda aqui ficou. que mundo este em que pirilampos e girinos já quase não existem. e na metade de mim que levaste contigo foram pirilampos e girinos que davam para alimentar todos os corações sós. todos os pássaros sem ninho - na metamorfose de uns e outros o corpo morre e nasce. em memória do teu. assim muito agarrado ao meu. como se nunca partisse. 
























quinta-feira, 21 de agosto de 2014











rita lino
























“Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar”
sophia de mello breyner andresen 














-



pouco sentido tem agora a vida. só este de ser agosto e não existir luz. de o tempo ser quente mas a tua pele tão fria - não sei que futuro me pertence. que destino me traçaram as parcas. que luta. que sorte. que tiro - às vezes acordo assim triste. passo o dia a ouvir-te: 'agora é que pinta o bago. ai agora é que ele é pintor. agora é que eu vou falar ai deveras ao meu amor'. e quase sinto o teu rosto assim perto do meu. e o teu coração ainda vivo. ainda batendo para sempre. como os sinos a anunciar a tua morte - invoco o teu nome como anunciação de estações alegres e ninguém diz. ninguém explica. esta tristeza. este vazio. este não estar onde. não saber o quê. porquê. como - nada - que o tempo corra. tão depressa que nem o sinta. que te traga como raio de luz assim forte. que me cegue. que a tristeza só exista para mim. por dentro - e estas dores que não passam. este amor que ainda vive. este não ser feliz - outro mundo foi nosso. quando fechava os olhos um mar muito azul-verde-celeste. gaivotas de papo farto. casas branco-puro. areias finas. e eu a pedir-te: diz-me uma coisa bonita - não sei se haverão já coisas bonitas a dizer. e se houvesse não sei se saberia dar-lhes sentido.

















terça-feira, 19 de agosto de 2014








jake erwin berry






















O que nos chama para dentro de nós mesmos
é uma vaga de luz, um pavio, uma sombra incerta. 
Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar 
 e nos torna piedosos, como quem já tem fé. 
Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida 
pelo movimento, pela forma, pelo nome, 
voltamos ao zero irradiante, ao ver 
o que foi grande, o que foi pequeno, aliás 
o que não tem tamanho, mas está agora 
 engrandecido dentro do novo olhar.

fiama hasse pais brandão












subitamente o teu rosto à tona d'água - regresso onde nos perdemos. uma curva de estrada apertada. pinheiros altos virados ao céu - ouve-se ao longe uma corrente de água. forte. sei que será fria como frias serão todas as águas que te não conheceram a pele - quase te ouço chamar-me. como um sorriso que a boca força e o corpo não reconhece - depois da curva uma reta funda a cortar o mato. nem uma nesga de sombra. apenas uma luz intensa a queimar os olhos. a pele. o caminho - disto somos feitos. para isto criamos o mundo. e fechar os olhos parece-me a melhor forma de sentir vida - dai-me outro coração mais sadio. com janelas abertas voltadas para os mares do norte. com montanhas altíssimas. desertos imensos e a tua voz. como um eco sem palavras. a cobrir de silêncio o peito - bate-me um coração que já não me pertence.em coordenadas que os ossos não sustentam. o corpo cai. o corpo vai. o corpo fica. para sempre. como uma curva de estrada aonde o teu não regressa - 






















quarta-feira, 13 de agosto de 2014









esben bøg jensen




















ultimamente
meus sonhos
têm sido
autênticos pesadelos.

antes assim.

não me assusto
tanto
ao despertar.

david gonzález














dias inteiros a inventar felicidade - as heras estão prontas. à porta de casa aguardam uma luz forte que de algum modo lhes devolva o verde brilho. as árvores insistem o teu nome. a brisa quente. muito quente. e o teu rosto de flores abertas. de ervas daninhas. de água fresca - que noite tão noite. que manhã tão manhã. de tarde tão tarde. a memória de ti. o azul que não volta. a boca fechada. o pesar tão grande. a tristeza tamanha - um país onde não houvesse nada e o teu nome fosse o eco de todas as palavra proferidas. e o teu rosto fosse todos os reflexos e toda a água seguisse o caminho dos teus braços - sempre te disse que o meu coração era um país onde não havia nada. nem amor 


















quinta-feira, 7 de agosto de 2014









laina briedis




























Este mundo não presta, venha outro.
Já por tempo de mais aqui andamos
A fingir de razões suficientes.
Sejamos cães do cão: sabemos tudo
De morder os mais fracos, se mandamos,
E de lamber as mãos, se dependentes.

josé saramago













esta terra que já foi prometida. como felicidade em corações assim sós. é um precipício - não sei para que lado da vida me hei-de virar. para que lado do mundo correr. que sentido dar ao espaço de tempo que o corpo não tem - neste país. que só é possível pela força do peito. nascem árvores de fruto. colhe-se cortiça e sabe-se que a vida regressa num futuro próximo. que a pele se acalma com segredos no ouvido. que na boca nenhum beijo. que ao corpo nenhum fim - esta língua carrega uma humanidade que não há. a ternura dos dias tortos. paisagens verdes. e os meus braços muito quietos como um grito - digo amor e a montanha responde. devagar. como uma palavra que o acaso inventou para trazer felicidade a corações assim sós - 













quarta-feira, 6 de agosto de 2014











irina monteanu




















Do fundo do sonho
uma mão me estendes.
Uma mão cortada
que me acaricia e foge.
Eu busco-a sem pressa
pelos cantos e livros.
Encontro só lábios,
estações, cigarros,
crianças a despedir-se,
umas gotas de sangue.
Pelo fundo do sonho
afastas-te devagar.
Quero gritar teu nome,
mas não sei quem és.
Na rua deserta,
ao dobrar a esquina,
viras-te a olhar-me
e sou eu quem me olha.

josé luis garcía martín












que azul de céu tão azul é este. que luz  incendeia tanto. tão dourada. tão no limite. quase noite. quase preto. quase tiro no escuro. quase bala no peito. e um silêncio tão grande. maior que os braços. maior que o corpo que parte. que o coração que adormece. e uma voz que me chama. tão perto. tão baixo. como um segredo que a pele reconhece pela acentuação do mundo - palavra por palavra. prometo. silêncio no silêncio. desperto.  o que te quis dizer. como um grito. que a boca não revela porque a língua muda. adormece. para sempre.  
















segunda-feira, 4 de agosto de 2014









Randy P. Martin






















Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem o amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade.)

orides fontela








é no verão que te lembro mais. por serem teus todos os dias quentes e os fins de tarde assim lentos. a demorar na pele. e o sol desaparecendo - quis fugir com a luz. devagar. muito devagar. corpo todo dorido. morrendo em paz - às vezes procuro-te por entre o azul. espero-te à sombra dos cedros. sentada na raiz de uma videira baixa. conto amoras como anos que passam - uma vez descobri aqui um ninho de melro. corri a contar-te. três pássaros pequenos e nus à espera da mãe - o que comem os pássaros. como voam os pássaros. para onde vão os pássaros. como se fazem os pássaros. tantas perguntas e apenas um sorriso de resposta - anoitece e tu não chegas. regresso a casa devagar. o caminho é estreito e cheira a terra quente. repito o teu nome. baixinho. como uma lenga lenga que o tempo não apaga e rima.