sexta-feira, 19 de setembro de 2014












randy p. martin 









queria lembrar-te de como fomos felizes. dos dias que partilhamos como anos que o tempo não apaga da pele - e dizer-te que muito te quis. que tanto te dei. que tudo é só teu. para sempre. que às vezes adormeço do teu lado da cama. que me sento no canto do sofá que moldaste com o corpo. que nenhum dia passa sem que te recorde - e fica sempre tanto por dizer. e fica sempre muito para te dar














segunda-feira, 15 de setembro de 2014











esben bøg jensen











Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar. 
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras. 

Porque eu cheguei e é tempo de me veres, 
Mesmo que os meus gestos te trespassem 
De solidão e tu caias em poeira, 
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras 
E os teus olhos nunca mais possam olhar. 

sophia de mello breyner








os dias. cada vez mais pequenos. cada vez mais sós. e os teus olhos. dois buracos enormes. indicam um caminho que já não existe - tanto te quis. tanto te fui. que o mundo inteiro. tão dentro de nós a desfazer-se      - não encontro um silêncio que possa acolher-me. um abraço onde possa esconder-me. uma nuvem onde desaparecer. para sempre - nenhum lugar nos conheceu tão nós. nenhuma boca nos contou como se contam as histórias com um final feliz - sem fim. como uma memória que atravessa o tempo para nos recordar de dias assim pequenos 
































quinta-feira, 11 de setembro de 2014

































laura makabresku

























se fosse como partir. deixar o corpo. fugir. por dentro do mundo correr com a vida - quando as noites assim frias. assim brancas. uma dor muito forte e o coração tão lento - que me deixes ir com os pássaros. em altos voos. cobrir de verde musgo os bosques. de azul celeste os céus. de branco puro as nuvens - adormeço e acordo com a certeza dos dias limpos. a morte não se faz deste sossego. a vida não se faz assim tão dura. entre vida e morte o tempo se constrói - que nenhum lugar ouse esquecer-te. que nenhum segredo abandone os teus lábios. para sempre o mesmo rosto. a mesma dor tão certa a construir futuro. como quem parte para sempre - sem coração.







sexta-feira, 5 de setembro de 2014



















laura makabresku
































Acreditar na vida como
acreditamos no boletim
metereológico de todos os dias.
Apesar de todas as previsões,
profundamente científicas,
há sempre uma variável que não
controlamos. E por isso temos
esperança e desconfiamos. E tal
como toda a gente, aprendemos
que há que saber sair de casa
esquecendo deliberadamente o
guarda-chuva.

ricardo marques




















e eu pedia-te que me contasses histórias felizes e tu deitavas-me no teu peito e dizias: era uma vez uma menina muito pequenina. do tamanho da palma da tua mão. mas com sonhos tão grandes que não cabiam neste mundo      - e se a história acabasse sem que eu adormecesse ficávamos a contar as estrelas ou as batidas do meu coração - às vezes ainda adormeço com a certeza de que estarás à minha espera. deitada nalguma estrela. a construir-me um mundo novo onde caibam meus sonhos grandes. quem sabe me reserves uma constelação - 
















segunda-feira, 1 de setembro de 2014







nastya kaletkina














às vezes
sinto que perdi os teus melhores anos

os melhores
são aqueles em que entendemos as coisas
pela metade

meia ciência sobre uma planta
metade do Homero lido
meio sonho numa caminhada ao entardecer
meio futuro envolvido em mistério
por não se entender metade
do passado

agora tudo fica difícil
entre nós

porque eu sei como Ulisses regressou
e tu tens o teu jardim
feito de tantas orquídeas como amantes
e todos floriram
quando deveriam florir
e morreram
quando deveriam morrer

mas eu posso dar-te a minha mão
e levar-te a comer os pêssegos onde eles
crescem pela primeira vez

e o reino não morrerá porque teremos a memória
das nossas mãos dadas e eternas
na noite iluminada anel por anel

se ainda quiseres
meu amor

fazer meio caminho até mim

mário osório














pirilampos são como girinos. existem no mundo para me lembrar de ti - e se fechar os olhos. muito bem fechados. recordo quando os caçava. pirilampos com um olho fechado. girinos com uma meia de vidro - não sei que metade de ti ainda aqui ficou. que mundo este em que pirilampos e girinos já quase não existem. e na metade de mim que levaste contigo foram pirilampos e girinos que davam para alimentar todos os corações sós. todos os pássaros sem ninho - na metamorfose de uns e outros o corpo morre e nasce. em memória do teu. assim muito agarrado ao meu. como se nunca partisse. 
























quinta-feira, 21 de agosto de 2014











rita lino
























“Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar”
sophia de mello breyner andresen 














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pouco sentido tem agora a vida. só este de ser agosto e não existir luz. de o tempo ser quente mas a tua pele tão fria - não sei que futuro me pertence. que destino me traçaram as parcas. que luta. que sorte. que tiro - às vezes acordo assim triste. passo o dia a ouvir-te: 'agora é que pinta o bago. ai agora é que ele é pintor. agora é que eu vou falar ai deveras ao meu amor'. e quase sinto o teu rosto assim perto do meu. e o teu coração ainda vivo. ainda batendo para sempre. como os sinos a anunciar a tua morte - invoco o teu nome como anunciação de estações alegres e ninguém diz. ninguém explica. esta tristeza. este vazio. este não estar onde. não saber o quê. porquê. como - nada - que o tempo corra. tão depressa que nem o sinta. que te traga como raio de luz assim forte. que me cegue. que a tristeza só exista para mim. por dentro - e estas dores que não passam. este amor que ainda vive. este não ser feliz - outro mundo foi nosso. quando fechava os olhos um mar muito azul-verde-celeste. gaivotas de papo farto. casas branco-puro. areias finas. e eu a pedir-te: diz-me uma coisa bonita - não sei se haverão já coisas bonitas a dizer. e se houvesse não sei se saberia dar-lhes sentido.

















terça-feira, 19 de agosto de 2014








jake erwin berry






















O que nos chama para dentro de nós mesmos
é uma vaga de luz, um pavio, uma sombra incerta. 
Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar 
 e nos torna piedosos, como quem já tem fé. 
Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida 
pelo movimento, pela forma, pelo nome, 
voltamos ao zero irradiante, ao ver 
o que foi grande, o que foi pequeno, aliás 
o que não tem tamanho, mas está agora 
 engrandecido dentro do novo olhar.

fiama hasse pais brandão












subitamente o teu rosto à tona d'água - regresso onde nos perdemos. uma curva de estrada apertada. pinheiros altos virados ao céu - ouve-se ao longe uma corrente de água. forte. sei que será fria como frias serão todas as águas que te não conheceram a pele - quase te ouço chamar-me. como um sorriso que a boca força e o corpo não reconhece - depois da curva uma reta funda a cortar o mato. nem uma nesga de sombra. apenas uma luz intensa a queimar os olhos. a pele. o caminho - disto somos feitos. para isto criamos o mundo. e fechar os olhos parece-me a melhor forma de sentir vida - dai-me outro coração mais sadio. com janelas abertas voltadas para os mares do norte. com montanhas altíssimas. desertos imensos e a tua voz. como um eco sem palavras. a cobrir de silêncio o peito - bate-me um coração que já não me pertence.em coordenadas que os ossos não sustentam. o corpo cai. o corpo vai. o corpo fica. para sempre. como uma curva de estrada aonde o teu não regressa -