segunda-feira, 6 de outubro de 2014








elizabeth gadd


















Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua

sophia de mello breyner
















como água dos mares do norte. fria na pele. que treme. que teme. que ouve sereias e piratas. navios com homens sem esperança. sem mapa. sem âncora. sem astrolábio. nem rumo - só uma luz muito forte. por entre nuvens. surge. e a certeza da tua voz dizendo o meu nome como a um sussurro - nunca regressas e o meu corpo tão velho. tão feio. tão perdido. tão feito à sombra. ainda te espera - o meu nome perdoa a tua boca e grita. silêncios tão grandes. tantos. que o corpo inteiro desaparece





















sabina tabakovic





















Fica ao menos o tempo de um cigarro, evita
comigo que este tempo ande. Lá fora
são as casas, vive gente à luz de um candeeiro,
o som que nos chega apagado pela distância
só denuncia o nosso silêncio interrompido.
Ajuda-me, faremos o inventário das coisas
menos úteis, mágoas na mágoa maior do tempo.
Fica, não te aproximes, nenhum dia
é menos sombrio, quando anoitecer vamos ver
as árvores cercando a casa.

helder moura pereira


















ao acordar. essa certeza absurda de que a vida é finita. de que o mundo é à toa. de que as nossas mãos nunca mais se voltarão a tocar - e a tristeza dos dias menos óbvios em que nos sentávamos a contar memórias. a fazer promessas. a chorar o mundo - e esta vontade de correr que incendeia o peito. esta força do corpo a tender para o futuro. este não saber onde. como. nem porquê. como se ir fosse o único caminho. como se ficar me retirasse humanidade - quase ser humano. a verdade absoluta do corpo que vai. que parte. céu adentro à procura de ti. em todas as nuvens - onde te escondeste que em nenhum pedaço de nuvem te encontro. que de ti fizeram as tempestades. os raios e os ventos fortes. para que parte do céu te mandaram os anjos - 
































quinta-feira, 2 de outubro de 2014




















































laura makabresku














Amor é o olhar total, que nunca pode
ser cantado nos poemas ou na música,
porque é tão-só próprio e bastante,
em si mesmo absoluto táctil,
que me cega, como a chuva cai
na minha cara, de faces nuas,
oferecidas sempre à água.
fiamma hasse pais brandão











não sabia como era andar perdido. tinha do mundo uma ideia errada. de que os dias só nasciam claros quando o amor no peito. quando a dor passada. quando o tempo inteiro - sobre esperança e luz nunca falava e os dias. atrás dos dias. repetiam-se como as estações nos anos - primavera.verão.outono.inverno - a vida. um sonho antigo que a boca repetia como ladainha. doía. doía tanto que o coração ficava assim tão apertado no peito. que o corpo todo se encolhia até ser assim pequeno. pequeno como pó. que uma rajada de vento levava para longe. para lá das paisagens que o olhar alcançava. longe. onde o para sempre existia - esse lugar tão longe. tão perto. tão dentro. onde ser feliz era o corpo inteiro de riso. o coração feito de luz. a pele quente de esperança. esse lugar existe quando o teu corpo me abraça. tão forte que o meu desaparece 































sexta-feira, 26 de setembro de 2014







eylül aslan











Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmos-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: “Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio”.
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir
à despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
“Adeus! Adeus!”
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes…
(primeiro, os olhos… em seguida, os lábios… depois os cabelos… )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo… tão leve… tão subtil… tão pólen…
como aquela nuvem além (veem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...
josé gomes ferreira















não sei se o silêncio existe para me lembrar de ti ou se eu própria o construo para me afastar do mundo - sei que em algum lugar me esperas com o corpo feito luz. e como uma nuvem dessas pequenas. passas tão rente à terra que às vezes julgo ouvir-te dizer o meu nome 





























sexta-feira, 19 de setembro de 2014












randy p. martin 









queria lembrar-te de como fomos felizes. dos dias que partilhamos como anos que o tempo não apaga da pele - e dizer-te que muito te quis. que tanto te dei. que tudo é só teu. para sempre. que às vezes adormeço do teu lado da cama. que me sento no canto do sofá que moldaste com o corpo. que nenhum dia passa sem que te recorde - e fica sempre tanto por dizer. e fica sempre muito para te dar














segunda-feira, 15 de setembro de 2014











esben bøg jensen











Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar. 
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras. 

Porque eu cheguei e é tempo de me veres, 
Mesmo que os meus gestos te trespassem 
De solidão e tu caias em poeira, 
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras 
E os teus olhos nunca mais possam olhar. 

sophia de mello breyner








os dias. cada vez mais pequenos. cada vez mais sós. e os teus olhos. dois buracos enormes. indicam um caminho que já não existe - tanto te quis. tanto te fui. que o mundo inteiro. tão dentro de nós a desfazer-se      - não encontro um silêncio que possa acolher-me. um abraço onde possa esconder-me. uma nuvem onde desaparecer. para sempre - nenhum lugar nos conheceu tão nós. nenhuma boca nos contou como se contam as histórias com um final feliz - sem fim. como uma memória que atravessa o tempo para nos recordar de dias assim pequenos 
































quinta-feira, 11 de setembro de 2014

































laura makabresku

























se fosse como partir. deixar o corpo. fugir. por dentro do mundo correr com a vida - quando as noites assim frias. assim brancas. uma dor muito forte e o coração tão lento - que me deixes ir com os pássaros. em altos voos. cobrir de verde musgo os bosques. de azul celeste os céus. de branco puro as nuvens - adormeço e acordo com a certeza dos dias limpos. a morte não se faz deste sossego. a vida não se faz assim tão dura. entre vida e morte o tempo se constrói - que nenhum lugar ouse esquecer-te. que nenhum segredo abandone os teus lábios. para sempre o mesmo rosto. a mesma dor tão certa a construir futuro. como quem parte para sempre - sem coração.