quinta-feira, 13 de novembro de 2014





elizabeth gadd











o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão

assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração

al berto













entre nós a vida aconteceu - como num dia de outono a chuva acontece.  assim entre nós tanta água. tanto frio. tanto mar. e uma distância dormente. no peito o peso da culpa do que não foi - e o corpo sem ar. de peito feito ao futuro 








terça-feira, 4 de novembro de 2014






ezgi polat











'Se partiste, não sei.
Porque estás,
tanto quanto sempre estiveste.


Essa tua,
tão nossa, presença
enche de sombra a casa
como se criasse,
dentro de nós,
uma outra casa.

No silêncio distraído
de uma varanda
que foi o teu único castelo,
ecoam ainda os teus passos
feitos não para caminhar
mas para acariciar o chão.

Nessa varanda te sentas
nesse tão delicado modo de morrer
como se nos estivesse ensinando
um outro modo de viver.

Se o passo é tão celeste
a viagem não conta
senão pelo poema que nos veste.

Os lugares que buscaste
não têm geografia.

São vozes, são fontes,
rios sem vontade de mar,
tempo que escapa da eternidade.

Moras dentro,
sem deus nem adeus.'

mia couto






estás no canto do sofá onde sempre te sentavas. sei dos teus aventais a secar no estendal debaixo do coberto. ouço as tuas pantufas arrastar na tijoleira. a tua tosse de madrugada. e aquele cheirinho a cevada fresca pela manhã. o doce de abóbora a fazer-se na panela mais funda. as galhas de eucalipto no jarrão da sala - nunca daqui saiste e. ainda assim. sei que em algum lugar teu corpo me espera - ao chegar à boca da quelha chamo por ti. o teu nome a enrolar-se na minha língua. até sufocar - valentina - avó - não ouvir-te dói - em dias de chuva sentavas-me no teu colo: nuvem dá-me água para eu dar ao vale. para o vale me dar erva. para eu dar à égua ... - e rias tão alto que as nuvens fugiam -  
























sexta-feira, 17 de outubro de 2014









randy p. martin






















Ponho a mão do lado direito
da face: tapo um olho
e não é metade o que vejo
nem reduzo a tristeza a seja o que for.
E se descruzo as pernas e as volto a cruzar
não muda em nada a minha condição
porque apenas transito o físico da dor
e não a dor em si mesma
se é que se pode pôr as coisas assim.
Vou folheando o meu livro de horas
à procura de luz nas palavras: não há luz
nas palavras.
É. Talvez seja da luz, talvez seja de lá.
daniel jonas










o que sei do mundo é: uma casa voltada para o mar e o teu olhar a dizer-me - está tudo bem. dorme sossegada - nunca acreditei que o mundo me reservasse calma. dias tranquilos de chuva. corpo pousado no ar. olhar disperso entre nuvens - que a vida me desse um descanso tal que. fechando os olhos. ouvisse o mar. o sol. uma árvore inclinar-se sobre as paisagens e o teu rosto voltado para o meu - a felicidade é hoje como abrir o peito e deixar partir o coração. para sempre 



















quarta-feira, 15 de outubro de 2014






elizabeth gadd























Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

ferreira gullar 









tu não sabes mas toda a noite te esperei - era tarde e o musgo crescia. lá longe. nesse bosque da infância aonde sempre regresso nos dias de chuva. sete corvos me guardam - o silêncio dos dias húmidos crescia- verde fora sem esperança. o corpo desaparece. para sempre - quis dizer-te adeus mas na minha boca nasciam carquejas e eucaliptos - para ti guardei lugares tão calmos. nuvens tão novas. tempos vazios. onde a vida fosse tão simples como partir





























terça-feira, 7 de outubro de 2014








ezgi polat
















'há travessias que só se podem efectuar sozinho, sem ajudas, ainda que correndo riscos de ir a pique numa dessas madrugadas de insónia que nos tornam Pedro e Inês em cripta de Alcobaça, jacentes de pedra até ao fim do mundo.'
antónio lobo antunes











simples como acordar de um sonho que não se quis. e esperar pela manhã com a pele toda tremendo e o corpo todo suado. marcas de unhas nos braços. nas pernas. na cara. no mundo - acreditar que esta dor um dia parte. parte com o coração. com o corpo já sem braços. nem pernas. nem cara. nem mundo - e sem olhar para trás. deixarei florestas inteiras. águas selvagens. pinheiros mansos. castanhas cruas. e irei. por dentro da terra. à procura de paz - e tu viverás em memórias mansas - e vão dizer: era uma vez uma mulher tão branca que no seu peito nascia neve e dos seus olhos caía gelo - e toda a tua beleza viverá para sempre 









segunda-feira, 6 de outubro de 2014








elizabeth gadd


















Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua

sophia de mello breyner
















como água dos mares do norte. fria na pele. que treme. que teme. que ouve sereias e piratas. navios com homens sem esperança. sem mapa. sem âncora. sem astrolábio. nem rumo - só uma luz muito forte. por entre nuvens. surge. e a certeza da tua voz dizendo o meu nome como a um sussurro - nunca regressas e o meu corpo tão velho. tão feio. tão perdido. tão feito à sombra. ainda te espera - o meu nome perdoa a tua boca e grita. silêncios tão grandes. tantos. que o corpo inteiro desaparece





















sabina tabakovic





















Fica ao menos o tempo de um cigarro, evita
comigo que este tempo ande. Lá fora
são as casas, vive gente à luz de um candeeiro,
o som que nos chega apagado pela distância
só denuncia o nosso silêncio interrompido.
Ajuda-me, faremos o inventário das coisas
menos úteis, mágoas na mágoa maior do tempo.
Fica, não te aproximes, nenhum dia
é menos sombrio, quando anoitecer vamos ver
as árvores cercando a casa.

helder moura pereira


















ao acordar. essa certeza absurda de que a vida é finita. de que o mundo é à toa. de que as nossas mãos nunca mais se voltarão a tocar - e a tristeza dos dias menos óbvios em que nos sentávamos a contar memórias. a fazer promessas. a chorar o mundo - e esta vontade de correr que incendeia o peito. esta força do corpo a tender para o futuro. este não saber onde. como. nem porquê. como se ir fosse o único caminho. como se ficar me retirasse humanidade - quase ser humano. a verdade absoluta do corpo que vai. que parte. céu adentro à procura de ti. em todas as nuvens - onde te escondeste que em nenhum pedaço de nuvem te encontro. que de ti fizeram as tempestades. os raios e os ventos fortes. para que parte do céu te mandaram os anjos -