sexta-feira, 10 de abril de 2015





witchoria













Tentei fugir da mancha mais escura que existe no teu corpo, e desisti. Era pior que a morte o que antevi: era a dor de ficar sem sepultura.
david mourão ferreira







na porta de casa repousa um ramo de alecrim e alfazema. atado por uma rama seca. o teu xaile pousado na mesa. e a tua boca fina sorrindo com as mãos presas uma à outra. como quem espera que o amor nunca acabe - haveria de jurar-te o maior amor do mundo. nesta imagem. tal como uma fotografia que a memória não esquece. uma paisagem que te devolve vida - sei que existes pela luz que trago dentro. que como flor cultivaste com sorrisos e carinho - o meu coração é um diamante bruto lapidado pelo tempo e pelos lugares por onde passei - nenhuma dor maior como a de te ver partir. lentamente. pé ante pé. sopro de ar           - suspiro - é por ti que correm os meus braços. por ti toda a minha vida 











quinta-feira, 2 de abril de 2015






mariana sabino














Vais crescendo, meu filho, com a difícil luz do mundo. Não foi um paraíso, que não é medida humana, o que para ti sonhei. Só quis que a terra fosse limpa, nela pudesses respirar desperto e aprender que todo homem, todo, tem direito a sê-lo inteiramente até ao fim. Terra de sol maduro, redonda terra de cavalos e maçãs, terra generosa, agora atormentada no próprio coração; terra onde teu pai e tua mãe amaram para que fosses o pulsar da vida, tornada inferno vivo onde nos vão encurralando o medo, a ambição, a estupidez, se não for demência apenas a razão; terra inocente, terra atraiçoada, em que nem sequer é já possível pousar num rio os olhos de alegria, e partilhar o pão, ou a palavra; terra onde o ódio a tanta e tão vil besta fardada é tudo o que nos resta; abutres e chacais que do saber fizeram comércio tão contrário à natureza que só crimes e crimes e crimes pariam. Que faremos nós, filho, para que a vida seja mais que a cegueira e cobardia?
eugénio de andrade









tens o hábito de segurar firme as princesas. talvez por isso deus te tenha dado braços robustos e um rosto iluminado - às vezes vens buscar-me para uma conversa. falas de tudo menos do que sentes. mas sei que sentes. tanto que nem imaginas - tens guardadas nos olhos as mais belas paisagens. estradas de países longe. o frio da bósnia    - dias há em que te sei na primavera coroada de flores - sabes a. recordo com saudade a alegria do teu casamento. o dia longo. o corredor da igreja rodeado de gente. e o teu rosto a aquecer o frio do desconhecido - pés firmes no caminho. a certeza do caminhar. sossegado como o coração e a tranquilidade do p. ao dar-te a mão - mais tarde concretizaste o teu sonho e hoje és mãe da mais bela princesa que o país conheceu. a quem deste o mais bonito nome das ibérias - nunca to disse mas tens em mim um futuro de sol. uma luz que te guarda para sempre. tão perto que nem consegues ver - a luz quando é forte cega - queria falar-te de sonhos. de dias melhores. de carinhos no peito e  abraços tão fortes que te segurem quando atravessares desertos e campos sem dono - a vida não tem sido nada fácil. os dias passam na ânsia de algo melhor. mas se fechares os olhos descobrirás que dentro de ti vivem milhares de estrelas que na noite iluminam os passos de quem amas - 



















terça-feira, 31 de março de 2015






laura makabresku











Já só na gravata te levamos morto àqueles caminhos
onde deixaste a marca dos teus pés
Apenas na gravata. A tua morte
deixou de nos vestir completamente
No verão em que partiste bem me lembro
pensei coisas profundas
É de novo verão. Cada vez tens menos lugar
neste canto de nós donde anualmente
te havemos piedosamente de desenterrar
Até à morte da morte

ruy belo








um gosto seco na boca e a certeza da morte que avança sobre a superfície plana da vida. num rasgo de destino o teu rosto a desaparecer como nuvem. suspenso no céu - duas mãos muito fortes seguram o meu corpo: não me deixes cair, ouviste        . não me deixes cair - no dia maior a noite avança. aceito a escuridão como quem atira uma pedra ao vazio - dizes: não fujas - às vezes a minha voz soletra o teu nome e a luz regressa lenta à vida - queria dizer-te que está tudo bem mas não está. o bem existe mas anda tolhido no coração dos homens. dá-me o teu coração. hei-de tomar conta dele e enquanto for viva dar-te-ei os maiores sorrisos de mundo - quero que fiques triste. tens direito a estar triste. abraço-te pela vida fora 




















sexta-feira, 27 de março de 2015






ezgi polat







'Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta'
josé régio








:rapariga. quando não souberes o que dizer cala-te bem caladinha     - é como se te visse de azul celeste. o tom de voz sereno mas bravio. que nunca mais ouvi em nenhuma boca. a desaparecer lentamente pelo corredor fora:       cala-te bem ca-la-di-nha   - tantas vezes te disse como me doía o silêncio. onde me doía o silêncio. que partes do corpo o silêncio parte e desmembra - a isso respondias com altivez: saber calar é a maior virtude dos vivos - tantas vezes me escondia nas moitas. em silêncio. à espera que a tua boca dissesse o meu nome. e não dizia. nada. só vazio            - quando entardecia pedia a deus. nosso senhor. senhor de todos os senhores. que me mostrasse beleza. e juro que via raios de luz mais fortes e flores crescendo mais depressa. e o verde a ser mais verde nas paisagens. as árvores falavam para mim.  juro  - tantas vezes me espanto com a beleza do mundo, onde menos espero. em quem menos conheço - e tu sabias da beleza do mundo. conhecias deus como ninguém conhecia. era o teu deus. um deus maior. interior. firme - quando o deserto do mundo me aflige agarro-me à beleza do mundo e sobrevivo - sobreviver é estar muito caladinha e esperar na moita que alguém me chame. 










quarta-feira, 25 de março de 2015








ezgi polat












É preciso falar baixo no sítio da primavera, junto
à terra nocturna. Junto à terra transfigurada.
Tudo ouve as minhas palavras talvez irremediáveis..
Infatigável perfume se acrescenta nos jacintos, fogo
sem fim circunda suas raízes leves.
É preciso não acordar do seu ofício a luz que inclina
os meus espinhos frios, a lua que inclina
meu sangue ligado e o sangue da terra nocturna.

herberto helder 














não reconhecia a primavera. o segredo dos dias maiores. o regresso dos pássaros     - o caudal dos rios de repente muito azul       - no lugar do cabeço erguem-se as giestas e a figura de um homem precipita-se - dizem que não resistiu ao equinócio. que a neve nas serras altas lhe tinha levado a cor. que desapareceu lentamente como um floco assim posto ao sol     - uma morte calma e tão cheia de luz que todos os flocos do mundo desaparecessem e. de repente. a água ocupasse o vale e só o cabeço resistisse impune - ao lugar do cabeço rumam mulheres e homens de luto. todos de preto. cabeça baixa. esperança ainda viva: que noé nos traga uma arca grande onde meter tristeza e morte - ao subir o monte uma árvore mansa onde encostar o corpo e deixar cair o coração. que ninguém saiba que tão triste assim fiquei. que ninguém o descubra. que o deserto do mundo me acuda   - 










segunda-feira, 16 de março de 2015








ezgi polat
























A semana passada pus-me a enlouquecer. Não te disse nada. Primeiro eram as cortinas rasgadas apenas para que entrasse a luz dos candeeiros e o quarto se tornasse uma espécie de câmara de revelação onde algo começava a existir. Não é inquietante? Algo começar a existir. Pela manhã, depois de não ter dormido, sentava-me na escadaria de pedra e acendia um cigarro.
vasco gato










a inquietação dos dias pares - acordar cansada. com o peso do mundo aos ombros e a cabeça latindo como cão sem dono - ao coração reservei dias calmos. certeza de peixes em cardume. beleza de garças. os mais altos voos        - o tempo resolve-se nítido como cataratas. uma luz muito fina até ao osso. um dia construirei paisagens de uma beleza tão pura que cegue homens sem pele. e ninguém poderá dizer que foi inteiramente feliz      - a proximidade de dois corpos mede-se pela certeza da boca: sim. para sempre - mas nunca nos perdêramos tanto como agora - construímos ninhos de medo e terror em primaveras sem sonhos - talvez o meu silêncio se reproduza até à exaustão.












quarta-feira, 11 de março de 2015









mariam sitchinava












Seguramos o fósforo, e o infinito cresce
entre os astros pacientes, invisíveis, a
mancha do electrão por sobre a chapa.
Não conhecemos deus, a inexistência. Não
procuramos, alta, a vibração
do tempo. Seguramos o fósforo
e a luz é frágil, parca,
necessária.

antónio franco alexandre









ficamos horas a apanhar girinos. ao fim da tarde regressamos a casa. pelo caminho descascamos laranjas. e as caretas dos gomos azedos na boca eram motivo de riso - ao longe ainda se ouviam as rãs e nas galhas da laranjeira os pardais - estava muito calor. tiraste a boina e olhaste para trás: não te atrases rapariga - confesso-me distraída com uma borboleta amarela - em agosto levavas-me sempre a apanhar pinhas: vês. os pinheiros estão carregados delas. falta só um bocadinho de vento - e eu. perante a tua indignação. olhava para a copa dos pinheiros e soprava o mais que podia - tu rias muito alto e a avó vinha ao nosso encontro  -  às vezes. aborrecida. corria quelha abaixo: tio zé. tio zé       - e tu ouvias. percebias tudo. levavas a sério tudo o que te dizia. mesmo que não fizesse sentido. pegavas-me depois pelo braço e levavas-me a ver a tua mulher. a tua maria - dizias-me: vês a minha maria. todo o meu amor lhe pertence - e lembro-me dos seus olhos tão desertos. tão vazios. e nós ficávamos ali. tardes inteiras. a ouvi-la respirar - às vezes levantavas-te e ias pentear-lhe os cabelos. eu fazia-lhe bonitas tranças e encostava a minha cara à dela. tinha uma pele tão macia - outras vezes ficávamos só em silêncio. eu muito encostada a ti acabava por adormecer - quando a avó morreu estavas muito doente. abraçaste-me forte: ai rapariga. morreu-te a tua mãezinha - pouco tempo depois morreu a tua maria. abracei-te forte. segredaste-me: elas vêm buscar-me - e assim foi