domingo, 19 de abril de 2015







laura makabresku 











Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
herberto helder





tão só que o mundo se arrependa de me ter tido. que os homens não gostem de me ter amado. que todos os amigos me recordem como a palavra nunca pronunciada - enfim. tão só. ao longe barcos cruzam a paisagem e é como se eu assim me cruzasse comigo e me dissesse: dói-te tanto o corpo. porque sorris - a ninguém se deu o direito de questionar sorrisos. deixai-me passar pelo mundo de cabeça erguida. pesa-me tanto o corpo. sinto a alma tão longe. deixai-me cair de uma vez para sempre - todos os mares do mundo conhecem a minha pele. estranhos dividiram comigo os maiores sonhos. e ninguém decerto me conhece - se me ouvires chamar nada faças. a minha dor é tão grande que nada podes fazer. se me ouvires gritar. corre. o mais fundo que puderes. não tenhas medo. será escuro. será denso. mas a vida é feita disso e quem o nega não vive - 












terça-feira, 14 de abril de 2015





ezgi polat










The leaves are falling, falling as if from far up,
as if orchards were dying high in space.
Each leaf falls as if it were motioning "no."

And tonight the heavy earth is falling
away from all other stars in the loneliness.

We're all falling. This hand here is falling.
And look at the other one. It's in them all.

And yet there is Someone, whose hands
infinitely calm, holding up all this falling.

rainer maria rilke


















i spend all my days trying to find the right way to tell you how I feel. how bad my heart goes – and every morning i look at mirror and i say: i’m better now. i really can rest – but my body hurts. my soul crashes into small pieces and i’m broken. i’m so fucking broken that I guess I never be myself again – when you leave me. my skin became glass and all my bones frozen. my body started to being a glaciar. and i’m so polar - sometimes I think about us and it’s like a dream that a dreamt so far ago. i remember your voice telling me things. sweet memories of places where i never go – one day. in the future. my dark and deep soul will rebirth and my body finally goes into the light








sexta-feira, 10 de abril de 2015





witchoria













Tentei fugir da mancha mais escura que existe no teu corpo, e desisti. Era pior que a morte o que antevi: era a dor de ficar sem sepultura.
david mourão ferreira







na porta de casa repousa um ramo de alecrim e alfazema. atado por uma rama seca. o teu xaile pousado na mesa. e a tua boca fina sorrindo com as mãos presas uma à outra. como quem espera que o amor nunca acabe - haveria de jurar-te o maior amor do mundo. nesta imagem. tal como uma fotografia que a memória não esquece. uma paisagem que te devolve vida - sei que existes pela luz que trago dentro. que como flor cultivaste com sorrisos e carinho - o meu coração é um diamante bruto lapidado pelo tempo e pelos lugares por onde passei - nenhuma dor maior como a de te ver partir. lentamente. pé ante pé. sopro de ar           - suspiro - é por ti que correm os meus braços. por ti toda a minha vida 











quinta-feira, 2 de abril de 2015






mariana sabino














Vais crescendo, meu filho, com a difícil luz do mundo. Não foi um paraíso, que não é medida humana, o que para ti sonhei. Só quis que a terra fosse limpa, nela pudesses respirar desperto e aprender que todo homem, todo, tem direito a sê-lo inteiramente até ao fim. Terra de sol maduro, redonda terra de cavalos e maçãs, terra generosa, agora atormentada no próprio coração; terra onde teu pai e tua mãe amaram para que fosses o pulsar da vida, tornada inferno vivo onde nos vão encurralando o medo, a ambição, a estupidez, se não for demência apenas a razão; terra inocente, terra atraiçoada, em que nem sequer é já possível pousar num rio os olhos de alegria, e partilhar o pão, ou a palavra; terra onde o ódio a tanta e tão vil besta fardada é tudo o que nos resta; abutres e chacais que do saber fizeram comércio tão contrário à natureza que só crimes e crimes e crimes pariam. Que faremos nós, filho, para que a vida seja mais que a cegueira e cobardia?
eugénio de andrade









tens o hábito de segurar firme as princesas. talvez por isso deus te tenha dado braços robustos e um rosto iluminado - às vezes vens buscar-me para uma conversa. falas de tudo menos do que sentes. mas sei que sentes. tanto que nem imaginas - tens guardadas nos olhos as mais belas paisagens. estradas de países longe. o frio da bósnia    - dias há em que te sei na primavera coroada de flores - sabes a. recordo com saudade a alegria do teu casamento. o dia longo. o corredor da igreja rodeado de gente. e o teu rosto a aquecer o frio do desconhecido - pés firmes no caminho. a certeza do caminhar. sossegado como o coração e a tranquilidade do p. ao dar-te a mão - mais tarde concretizaste o teu sonho e hoje és mãe da mais bela princesa que o país conheceu. a quem deste o mais bonito nome das ibérias - nunca to disse mas tens em mim um futuro de sol. uma luz que te guarda para sempre. tão perto que nem consegues ver - a luz quando é forte cega - queria falar-te de sonhos. de dias melhores. de carinhos no peito e  abraços tão fortes que te segurem quando atravessares desertos e campos sem dono - a vida não tem sido nada fácil. os dias passam na ânsia de algo melhor. mas se fechares os olhos descobrirás que dentro de ti vivem milhares de estrelas que na noite iluminam os passos de quem amas - 



















terça-feira, 31 de março de 2015






laura makabresku











Já só na gravata te levamos morto àqueles caminhos
onde deixaste a marca dos teus pés
Apenas na gravata. A tua morte
deixou de nos vestir completamente
No verão em que partiste bem me lembro
pensei coisas profundas
É de novo verão. Cada vez tens menos lugar
neste canto de nós donde anualmente
te havemos piedosamente de desenterrar
Até à morte da morte

ruy belo








um gosto seco na boca e a certeza da morte que avança sobre a superfície plana da vida. num rasgo de destino o teu rosto a desaparecer como nuvem. suspenso no céu - duas mãos muito fortes seguram o meu corpo: não me deixes cair, ouviste        . não me deixes cair - no dia maior a noite avança. aceito a escuridão como quem atira uma pedra ao vazio - dizes: não fujas - às vezes a minha voz soletra o teu nome e a luz regressa lenta à vida - queria dizer-te que está tudo bem mas não está. o bem existe mas anda tolhido no coração dos homens. dá-me o teu coração. hei-de tomar conta dele e enquanto for viva dar-te-ei os maiores sorrisos de mundo - quero que fiques triste. tens direito a estar triste. abraço-te pela vida fora 




















sexta-feira, 27 de março de 2015






ezgi polat







'Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta'
josé régio








:rapariga. quando não souberes o que dizer cala-te bem caladinha     - é como se te visse de azul celeste. o tom de voz sereno mas bravio. que nunca mais ouvi em nenhuma boca. a desaparecer lentamente pelo corredor fora:       cala-te bem ca-la-di-nha   - tantas vezes te disse como me doía o silêncio. onde me doía o silêncio. que partes do corpo o silêncio parte e desmembra - a isso respondias com altivez: saber calar é a maior virtude dos vivos - tantas vezes me escondia nas moitas. em silêncio. à espera que a tua boca dissesse o meu nome. e não dizia. nada. só vazio            - quando entardecia pedia a deus. nosso senhor. senhor de todos os senhores. que me mostrasse beleza. e juro que via raios de luz mais fortes e flores crescendo mais depressa. e o verde a ser mais verde nas paisagens. as árvores falavam para mim.  juro  - tantas vezes me espanto com a beleza do mundo, onde menos espero. em quem menos conheço - e tu sabias da beleza do mundo. conhecias deus como ninguém conhecia. era o teu deus. um deus maior. interior. firme - quando o deserto do mundo me aflige agarro-me à beleza do mundo e sobrevivo - sobreviver é estar muito caladinha e esperar na moita que alguém me chame. 










quarta-feira, 25 de março de 2015








ezgi polat












É preciso falar baixo no sítio da primavera, junto
à terra nocturna. Junto à terra transfigurada.
Tudo ouve as minhas palavras talvez irremediáveis..
Infatigável perfume se acrescenta nos jacintos, fogo
sem fim circunda suas raízes leves.
É preciso não acordar do seu ofício a luz que inclina
os meus espinhos frios, a lua que inclina
meu sangue ligado e o sangue da terra nocturna.

herberto helder 














não reconhecia a primavera. o segredo dos dias maiores. o regresso dos pássaros     - o caudal dos rios de repente muito azul       - no lugar do cabeço erguem-se as giestas e a figura de um homem precipita-se - dizem que não resistiu ao equinócio. que a neve nas serras altas lhe tinha levado a cor. que desapareceu lentamente como um floco assim posto ao sol     - uma morte calma e tão cheia de luz que todos os flocos do mundo desaparecessem e. de repente. a água ocupasse o vale e só o cabeço resistisse impune - ao lugar do cabeço rumam mulheres e homens de luto. todos de preto. cabeça baixa. esperança ainda viva: que noé nos traga uma arca grande onde meter tristeza e morte - ao subir o monte uma árvore mansa onde encostar o corpo e deixar cair o coração. que ninguém saiba que tão triste assim fiquei. que ninguém o descubra. que o deserto do mundo me acuda   - 










segunda-feira, 16 de março de 2015








ezgi polat
























A semana passada pus-me a enlouquecer. Não te disse nada. Primeiro eram as cortinas rasgadas apenas para que entrasse a luz dos candeeiros e o quarto se tornasse uma espécie de câmara de revelação onde algo começava a existir. Não é inquietante? Algo começar a existir. Pela manhã, depois de não ter dormido, sentava-me na escadaria de pedra e acendia um cigarro.
vasco gato










a inquietação dos dias pares - acordar cansada. com o peso do mundo aos ombros e a cabeça latindo como cão sem dono - ao coração reservei dias calmos. certeza de peixes em cardume. beleza de garças. os mais altos voos        - o tempo resolve-se nítido como cataratas. uma luz muito fina até ao osso. um dia construirei paisagens de uma beleza tão pura que cegue homens sem pele. e ninguém poderá dizer que foi inteiramente feliz      - a proximidade de dois corpos mede-se pela certeza da boca: sim. para sempre - mas nunca nos perdêramos tanto como agora - construímos ninhos de medo e terror em primaveras sem sonhos - talvez o meu silêncio se reproduza até à exaustão.












quarta-feira, 11 de março de 2015









mariam sitchinava












Seguramos o fósforo, e o infinito cresce
entre os astros pacientes, invisíveis, a
mancha do electrão por sobre a chapa.
Não conhecemos deus, a inexistência. Não
procuramos, alta, a vibração
do tempo. Seguramos o fósforo
e a luz é frágil, parca,
necessária.

antónio franco alexandre









ficamos horas a apanhar girinos. ao fim da tarde regressamos a casa. pelo caminho descascamos laranjas. e as caretas dos gomos azedos na boca eram motivo de riso - ao longe ainda se ouviam as rãs e nas galhas da laranjeira os pardais - estava muito calor. tiraste a boina e olhaste para trás: não te atrases rapariga - confesso-me distraída com uma borboleta amarela - em agosto levavas-me sempre a apanhar pinhas: vês. os pinheiros estão carregados delas. falta só um bocadinho de vento - e eu. perante a tua indignação. olhava para a copa dos pinheiros e soprava o mais que podia - tu rias muito alto e a avó vinha ao nosso encontro  -  às vezes. aborrecida. corria quelha abaixo: tio zé. tio zé       - e tu ouvias. percebias tudo. levavas a sério tudo o que te dizia. mesmo que não fizesse sentido. pegavas-me depois pelo braço e levavas-me a ver a tua mulher. a tua maria - dizias-me: vês a minha maria. todo o meu amor lhe pertence - e lembro-me dos seus olhos tão desertos. tão vazios. e nós ficávamos ali. tardes inteiras. a ouvi-la respirar - às vezes levantavas-te e ias pentear-lhe os cabelos. eu fazia-lhe bonitas tranças e encostava a minha cara à dela. tinha uma pele tão macia - outras vezes ficávamos só em silêncio. eu muito encostada a ti acabava por adormecer - quando a avó morreu estavas muito doente. abraçaste-me forte: ai rapariga. morreu-te a tua mãezinha - pouco tempo depois morreu a tua maria. abracei-te forte. segredaste-me: elas vêm buscar-me - e assim foi























domingo, 8 de março de 2015









mariam sitchinava











explicar com palavras deste mundo
que partiu de mim um barco levando-me

Alejandra Pizarnik














não há regresso - entregaram o teu corpo a paraísos sem nome. nem a beleza de reconhecidos poemas te devolve vida - meu coração sem fala. na minha veia cava o buraco para a minha própria sepultura - esta manhã pareceu-me ouvir-te. corri ao teu quarto mas não estavas. não mais estarás. nunca mais te verei sentada na cama inventando paisagens. sobrevoando sonhos. rezando a todos os santos. tentando calçar as pantufas - e esta saudade aflitiva. que não passa, que insiste. que cresce - as mimosas já com flor e eu ainda sem ti. quantas primaveras me faltam para que me sente no teu colo a contar estrelas. para desaparecermos num golpe de luz forte. para sempre - as heras cobrem cada vez mais o muro e as silvas começam lentamente a florir. não tarda serão amoras - gostavas tanto de amoras. ao fim da tarde o teu avental cheio delas. e ficávamos a pintar de negro as bocas e a adivinhar o futuro - não sei se algum dia serei tão feliz como querias - tenho pena que não te tenham conhecido todas as pessoas que hoje me conhecem. falo de ti e não percebem de que ternura eras feita. do sossego dos teus olhos azuis       - quase sempre me custa respirar. viver - já nada posso partilhar contigo. já não te posso dizer: avó. deixa-me aqui ficar. quero chorar muito - tu puxavas-me para ti e abraçavas-me com força.quando parava de soluçar pousavas as tuas mãos nas minhas costas e ficávamos assim horas - mais tarde seguravas-me no queixo e dizias: sossega coração triste. se o amor existe deve estar para chegar.













quarta-feira, 4 de março de 2015











mariam sitchinava
















Olhos postos na terra, tu virás
no ritmo da própria primavera,
e como as flores e os animais
abrirás nas mãos de quem te espera.

eugénio de andrade








é quase primavera e o meu corpo senta-se à sombra de giestas baixas a descobrir ninhos -  as poucas nuvens do céu a formar pássaros. cães. laços. árvores   . e no caminho algumas borboletas cercando margaridas - às vezes. não sei se te lembras. as minhas saias ficavam amarelas e tu ralhavas-me: já andaste no meio das giestas -





















sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015















laura makabresku
















A tarde dissolve-se sobre a terra, sobre a nossa casa. O céu desfia um sopro quieto nos rostos. Acende-se a lua. Translúcida, adormece um sono cálido nos olhares. Anoitece devagar. Dizia nunca esquecerei, e lembro-me. Anoitecia devagar e, a esta hora, nesta altura do ano, desenrolavas a mangueira com todos os preceitos e, seguindo regras certas, regavas as árvores e as flores do quintal; e tudo isso me ensinavas, tudo isso me explicavas. 
 jose luís peixoto













há alguns dias que ando por aqui. sustendo a respiração quando me aproximo. tenteando o corpo quando a tua imagem se me apresenta em forma de retratos e memórias – os dias têm sido frios. muito frios. como sabes tenho passado as tarde de pernas cruzadas. sentada em frente à lareira. ouvindo a madeira de pinheiro a fazer barulhos que não conseguirei replicar ainda que o quisesse – passaram anos e tudo tão na mesma – ontem procurei as tuas pantufas. não estavam no sítio do costume. revirei a casa. vim a saber que estão guardadas. junto com muitas outras coisas tuas. numa caixa no sótão – só queria calçá-las um bocadinho. não é que me servissem. tinhas o corpo mais pequeno. mas era só para confirmar que estão frias. que já não as calças. quero acreditar que aí onde agora moras não precisas de pantufas. que o chão é feito de nuvens quentes – os santos têm vindo sem aviso até mim. a meio do corredor a mãe ergueu um altar em tua homenagem. temos rezado muito por ti – todos os sábados a mãe vai ao cemitério acender-te uma vela. sei que não estás lá. mas foi lá que meteram o teu corpo e lá que todos te procuram quando a saudade é maior. quando o sofrimento é mais forte – eu. já há algum tempo que não vou. e se estiveres ali onde te enterraram. debaixo de mármore. perdoa. ainda em vida avisei-te que gosto pouco de cemitérios – um dia destes levaram-me a ver a ponte pênsil. aquela dos meus sonhos que teimavas em dizer-me que existia – pelo caminho foram platanos nos olhos e heras no coração. ao fundo o rio. quieto. sobrevoado por garças de voo plano – a ponte é como nos meus sonhos. segura por braços fortes e pedaços de terra dura. ladeada de verde. de ervas e arbustos baixos - tinhas-me dito de quando ali te sentavas a meio da ponte. e de olhos fechados sentias o vento balançar a vida - como o mundo é pequeno quando assim estamos parados – quis fazer-me de água e correr rio abaixo. conhecer os peixes. descobrir as margens. parar no moinho para ouvir a roda e a água quase presa – às vezes a vida estala. às vezes o tempo dura. às vezes o mundo é fundo 












sexta-feira, 16 de janeiro de 2015







laura makabresku












'Hoje sonhei que estava sentado no parapeito do Viaduto Duarte Pacheco, a minha mãe chegava, dizia
com Deus me deito
com Deus me acho
aqui vai o Tóino
pela cama abaixo
eu ia e logo a seguir nada. Um dia destes vai ser assim, desejo que um dia destes seja assim.'
antónio lobo antunes





















minha tristeza tem nome e gritá-lo dói. tanto que morro. sempre que posso - partiste cedo para as nuvens. sempre ouvi dizer que lá somos mais pequenos. mais miseráveis. os mesmos humanos mas do tamanho de dedos - se me vires pequena acena. manda um temporal. qualquer coisa que me diga que tomas conta de mim - subitamente choro - às vezes sinto-te abraçada a mim. tão quente. que dizer-te agora que a tua presença só existe pelo amor que te tenho e é um amor tamanho. tanto - dizem que está a nevar. sempre gostaste de ver a serra branquinha. e a cada inverno lá ias. monte acima. experimentar o sossego e o frio. dizias: que a minha morte seja assim branquinha - não sei se foi. desconfio que não - imagino-te agora sentada em nuvens brancas a olhar o mundo e a gente pequena. estarás sossegada e feliz. está a nevar -










sexta-feira, 2 de janeiro de 2015








elizabeth gadd















Anos a fio guardaste
fios das conversas
alheias ao teu ouvir
fios que se esticavam
e se uniam a outros
iguais ou diferentes
a todos a tua paciência
e as tuas mãos hábeis
orientaram para um fim
da vida assim tecida mas
um dia algo se quebrou
em ti ou na dureza dos fios
e tombaste na terra fria
sem adivinhares o sentido
da vida por desfiar.
carlos alberto machado






quando aqui cheguei tudo estava no lugar - à entrada de casa dois girassóis maiores que eu e o dia encheu-se de luz - anseio a primavera. os teus olhos grandes. como girassóis. a encher de beleza a casa - estou na beira do penhasco e não sei se quero ir. digo que não sei porque a vontade de partir é como as estações - o coração. esse silencioso inimigo. sempre muito calado. à espera de partir - um dia










sexta-feira, 19 de dezembro de 2014







laura makabresku









A minha morte, não ta dou.
De resto, tiveste tudo
- a flor, a sesta, o lusco-fusco,
a inquietação do dia 8,
as órbitas das mães, das mãos,
das curiosas palavras de não dizer nadinha.
Tudo tiveste: estás contente?

Feliz assim por teres tudo o que sou?
Feliz por perderes tudo o que sei?

Só não te dou o que não serei.
Não, a minha morte, não ta dou.
pedro tamen










quando morreste fazia frio mas o céu sem nuvens - a geada entranhada na terra. funda - era a certeza que o tempo parava. e o sino forte na igreja batendo. como murros no peito e estalos na cara - entregaram o teu corpo já passava do meio dia. estavas tão asseada. trazias vestida a camisola cinzenta que tinha embrulhado para te oferecer no natal. como não chegaste ao natal vestiram-ta logo - de véu posto como uma grinalda. preto fundo nos olhos sempre tão azuis. um silêncio enorme instala-se na sala e eu a desaparecer. a desaparecer. a desaparecer           - ao final da tarde afoguei-me. tanta água. tanto sal. tanto mar. e fui como vão os peixes pequenos no mar alto. arrastada pelas águas - madrugada dentro. eu e o teu corpo na sala. cheguei-me a ti e lembro-me de te ter dito: reza comigo avó. e o frio da tua pele a meter-se na minha. e a minha mão de repente na tua - avé maria. cheia de graça           - quando amanheceu. já domingo seria. mas a consciência do tempo não existia. nem eu. e lembro-me de todos os corpos especados à porta de casa. tantas flores. tantas velas. tanto frio. tanta dor. levaram o teu corpo aldeia fora até ao cemitério. o meu corpo tão pesado abraçado à minha tia. minha tia com a força de mil homens a carregar-me avenida fora - não soube da mãe. nem do pai. não vi ninguém. só teu corpo deitado e o meu quase chão - meteram-te na terra faz hoje quatro anos 

















segunda-feira, 15 de dezembro de 2014






kindra nikole 












Esqueceria outros
pelo menos três ou quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos
ana cristina césar








o que existe entre nós é como uma história de uma só frase que. de boca em boca. até chegar ao futuro. cresce - o futuro para nós só existe na boca que faz crescer a frase e no coração que sente e bate a medo. nosso - esta história. como poema que ninguém escreveu. guarda-se no peito. no dedo. na ponta da língua. sente-se da pele ao osso - um dia. alguém a há-de contar. já epopeia. será falada por todas as bocas e o mundo. sem futuro. acreditará que entre nós existiu o amor possível


















quinta-feira, 11 de dezembro de 2014








elizabeth gadd





















Por um rosto chego ao teu rosto,
noutro corpo sei o teu corpo.
Num autocarro, num café me pergunto
porque não falam o que vai
no seu silêncio aqueles cujo olhar
me fala da solidão.
Esqueço-me de mim. Tão quieto
pensando na sua pouca coragem, a minha
sempre adiada. Por um rosto
chegaria o teu rosto, mesmo de um convite
ousado fugiria, esta mão conhece-te
e desenha no ar o hábito
por que andou antes de saíres
do espaço à sua volta. Estás longe,
só assim podes pedir algumas horas
aos meus dias. Sem fixar a voz
a tua voz é uma corda, a minha
um fio a partir-se.

helder moura pereira








é outra vez dezembro e o teu corpo regressa a mim. tão frio - nunca mais dezembro será alegre. sei-o agora - já lá vão dois pares de anos e o teu nome continua a ouvir-se pela casa - por dor ou respeito ninguém se senta no teu lugar à mesa. nem no canto do sofá. e ninguém abre a gaveta da cómoda. onde guardavas as nossas senhoras e todos os santos - este ano. finalmente. conseguimos fazer o pinheirinho de natal. está no canto da sala. muito iluminado. não te preocupes que também fizemos o presépio - tenho muitas saudades tuas. da cevada quente. do abraço forte. do olhar azul - que a luz te aconchegue e o céu te guarde - costumo pensar que és uma daquelas estrelas que iluminam a quelha quando a noite cai escura na aldeia

















sábado, 29 de novembro de 2014







ezgi polat










De que nos serve, no sábado à noite, quando a solidão 
dos abandonados vem ter connosco à mesa dos cafés, 
termos sido aquele a quem se disseram palavras de amor, 
terem-nos tocado e olhado, esperado por nós, 
enquanto ao longe os automóveis passavam, as pessoas, 
apressadas, continuavam a procurar, febris, a felicidade? 
Rompem-se as cordas, soam nos rios tristes da memória 
os sinos da miséria e da escuridão. E se chove, 
a melancolia que nos oprime já não se dilui nessa água suave. 
A rapariga que podíamos ter amado, a última, 
contempla as folhas verdes das árvores, sorri, 
e imagina, sentada ao nosso lado, uma alegria dolorosa, 
sem pensar em nós, distraída da densidade baça do nosso olhar. 
E à uma da manhã, quando o cansaço vem, 
e no espelho da casa de banho de um bar o rosto 
se nos revela atormentado, os poros gordurosos, 
dirigimo-nos devagar para a saída, dizemos boa-noite, 
e é só nossa essa morte secreta, esse abandono. 
joão camilo









na construção dos dias felizes o teu rosto. como um silêncio que a tristeza não reconhece - neste fim de tarde. tão sossegado. os meus braços caídos como dois galhos pesados de frutos. despeço-me de ti - a verdade azul púrpura. entreaberta de nuvens. a afirmar-se gélida na pele - sei que morreste. a esse respeito nada direi - quatro anos passaram desde a tua morte e a minha vida sempre a mesma. tão só me vejo. tão sem nada. que não me sinto já com forças para construir a casa na árvore. que me prometeste quando fiz cinco anos. que te prometi quando fizeste oitenta - os anos passam tão perto de nós. tantas marcas tenho hoje na pele - há meia dúzia de anos a promessa da árvore fazia sentido. tinha em mim a força de mil homens. a habilidade de mil mulheres. guardei bolotas. pinhas. ramos e pedras. sequei folhas no meio de livros e listas telefónicas. faríamos espanta espíritos  - desapareces com a luz do fim de tarde - o teu sorriso brando a atravessa o vazio e passa. tão junto ao meu ouvido. que ia jurar que aí semeia segredos - digo boa noite e abeiro-me do precipício. 













sexta-feira, 14 de novembro de 2014
















Que te acontece que não mais fizeste anos
embora a mesa posta continue à tua espera
e lá fora na estrada as amoreiras tenham outra vez
florido?

ruy belo







nunca me deixaste inteiramente e mesmo que o teu corpo não regresse a memória dá-lhe vida - hoje é como se me abraçasses. assim quente. assim tão perto. que o meu corpo todo se encolhe - o que fizeram ao meu coração não interessa. não hoje. não agora. que o dia me seja bom. que a vida me guarde uma eternidade tranquila. contigo. é só este o meu desejo de aniversário - o tempo passa tão depressa. tão depressa. e a gente nem o sente. nem o cuida. o tempo que tive contigo foi tão pouco - avó. não sei onde estás. mas imagino-te encostada a uma estrela. a fazer casa numa constelação 














quinta-feira, 13 de novembro de 2014





elizabeth gadd











o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão

assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração

al berto













entre nós a vida aconteceu - como num dia de outono a chuva acontece.  assim entre nós tanta água. tanto frio. tanto mar. e uma distância dormente. no peito o peso da culpa do que não foi - e o corpo sem ar. de peito feito ao futuro