terça-feira, 19 de maio de 2015





laura makabresku











correm em mim os mortos
como água

herberto helder










perto. mais perto não há. dentro do coração. mais dentro. tão fundo que abrir os olhos é como desvelar vidas - às vezes o teu rosto nas minhas mãos. tão próximo da minha boca. a abrir sorrisos - quero dizer-te que o futuro é uma promessa que a vida prepara com extremo detalhe - quando por dentro da noite. meu corpo é feito de luz. como se pirilampos o cobrissem. para que na escuridão venhas ao meu encontro. e eu te possa dar colo. sossegar-te o coração com os meus grandes silêncios - o mundo que imagino nosso é feito de árvores altas. céu limpo. frutos nas mãos - se esse mundo existe. não sei. talvez só nos meus sonhos ou nesse outro lado da vida onde a felicidade se faz dos nossos corpos juntos - um dia. se a promessa se cumprir. serão mil e uma estrelas nos teus olhos. a iluminar a escuridão de quem não acredita no futuro. 









domingo, 17 de maio de 2015






ezgi polat









tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
herberto helder







tão dentro da noite. o corpo só. a despedir-se de todas as memórias possíveis - quis dizer: perdoa-me - mas o silêncio abandonou-me ao desespero de nunca mais saber de ti - sei que irás desaparecer. lentamente. mais dia menos dia. lembrar-me-ei devagar do teu rosto. adormecerei no azul escuro dos teus olhos. até que também eu desapareça para sempre - a pele tão quente. a alma tão fria. a quem darei a minha mão. que corpo apertarei com os meus braços. que coração dará sentido às minhas tão poucas palavras - o céu. já quase púrpura. quase rubro. despede-se também de mim. mas a luz não acaba e por dentro da escuridão brilham estrelas. tão fundas. encontram o meu coração e ali vivem para sempre - por fim a vida conhecerá o amor












sexta-feira, 24 de abril de 2015






elizabeth gadd











Paz das montanhas, meu alívio certo.
O girassol do mundo, aberto,
E o coração a vê-lo, sossegado.
Fresco e purificado,
O ar que se respira.
Os acordes da lira
Audíveis no silêncio do cenário.
A bem-aventurança sem mentira:
Asas nos pés e o céu desnecessário.
miguel torga








tantas vezes a tua voz me chega de longe como um pronúncio de sorte. dizes: está tanto frio aqui.     - mas é tão grande a sorte de te ouvir que não sei que dizes - um cheiro forte a ervas doces e no umbigo a força de sete mares - e sei da copa das árvores sob as margens do lago da nossa morte. a água tão parada. as folhas tão quietas. a barca tão distante - o teu peito farto de frio o meu farto de ternura. deixo cair a cabeça no teu ombro e tu respiras tão fundo que eu sei o caminho que o ar percorre dentro do teu corpo - 








segunda-feira, 20 de abril de 2015






mariam sitchinava







Neste lugar transitório mantém-me mendigo
Desviando-me de mim - não
Da tua mão. Dá-me como. Conduz-me
Para a esquerda e para a direita, roda-me sempre
Para a saída

Deixa-me ser a porta no eixo
Posta para trás pela mão de quem entra
Deixa-me ser o chão assiduamente

Quero ganhar a forma
Do degrau
A forma da mão que se abre quando nada tem
E quero a mão, no entanto. Interessam-me alguns instrumentos de posse

A língua para me calar
As rótulas, os calcanhares, os rins

O corpo inteiro, completo
Para morrer

daniel faria 








sonhei que corrias. o coração ia-te à frente. batendo em todas as portas - em nenhuma casa me encontra. nenhuma porta se abre - queria correr por ti. correr contigo. mas as minhas pernas imóveis. só em sonhos       - e nada te digo hoje. porque não posso. as minhas mãos não reconhecem o teu rosto e os meus olhos. por quem os dias passam como nuvens. envelhecem - para ti reservo um inacreditável mundo novo. onde guardar todas as alegrias. de onde pássaros não migrem. para onde tu sempre corresses. outra vida -


















domingo, 19 de abril de 2015







laura makabresku 











Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
herberto helder





tão só que o mundo se arrependa de me ter tido. que os homens não gostem de me ter amado. que todos os amigos me recordem como a palavra nunca pronunciada - enfim. tão só. ao longe barcos cruzam a paisagem e é como se eu assim me cruzasse comigo e me dissesse: dói-te tanto o corpo. porque sorris - a ninguém se deu o direito de questionar sorrisos. deixai-me passar pelo mundo de cabeça erguida. pesa-me tanto o corpo. sinto a alma tão longe. deixai-me cair de uma vez para sempre - todos os mares do mundo conhecem a minha pele. estranhos dividiram comigo os maiores sonhos. e ninguém decerto me conhece - se me ouvires chamar nada faças. a minha dor é tão grande que nada podes fazer. se me ouvires gritar. corre. o mais fundo que puderes. não tenhas medo. será escuro. será denso. mas a vida é feita disso e quem o nega não vive - 












terça-feira, 14 de abril de 2015





ezgi polat










The leaves are falling, falling as if from far up,
as if orchards were dying high in space.
Each leaf falls as if it were motioning "no."

And tonight the heavy earth is falling
away from all other stars in the loneliness.

We're all falling. This hand here is falling.
And look at the other one. It's in them all.

And yet there is Someone, whose hands
infinitely calm, holding up all this falling.

rainer maria rilke


















i spend all my days trying to find the right way to tell you how I feel. how bad my heart goes – and every morning i look at mirror and i say: i’m better now. i really can rest – but my body hurts. my soul crashes into small pieces and i’m broken. i’m so fucking broken that I guess I never be myself again – when you leave me. my skin became glass and all my bones frozen. my body started to being a glaciar. and i’m so polar - sometimes I think about us and it’s like a dream that a dreamt so far ago. i remember your voice telling me things. sweet memories of places where i never go – one day. in the future. my dark and deep soul will rebirth and my body finally goes into the light








sexta-feira, 10 de abril de 2015





witchoria













Tentei fugir da mancha mais escura que existe no teu corpo, e desisti. Era pior que a morte o que antevi: era a dor de ficar sem sepultura.
david mourão ferreira







na porta de casa repousa um ramo de alecrim e alfazema. atado por uma rama seca. o teu xaile pousado na mesa. e a tua boca fina sorrindo com as mãos presas uma à outra. como quem espera que o amor nunca acabe - haveria de jurar-te o maior amor do mundo. nesta imagem. tal como uma fotografia que a memória não esquece. uma paisagem que te devolve vida - sei que existes pela luz que trago dentro. que como flor cultivaste com sorrisos e carinho - o meu coração é um diamante bruto lapidado pelo tempo e pelos lugares por onde passei - nenhuma dor maior como a de te ver partir. lentamente. pé ante pé. sopro de ar           - suspiro - é por ti que correm os meus braços. por ti toda a minha vida