domingo, 7 de junho de 2015




laura makabresku









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explicar con palabras de este mundo
que partió de mí un barco llevándome
alejandra pizarnik







amar-me é despedir-se lentamente do mundo e deixar-se cair levemente no céu - o mundo não me reconhece. porém. nem eu sei se o conheço. ou reconheço. mas não me esqueço do que sonhei. com as maiores forças que este corpo aguenta - os meus sonhos. maiores que o coração. permanecem impunes. apesar das dores. dos sofrimentos múltiplos. das tristezas tamanhas - a ninguém disse porque o caminho é tão longo. ninguém comigo esperou por dias felizes - só eu e o meu corpo reconhecemos a ausência do homem. quando a tempestade chega. o caminho se estreita. a vida desaparece. uma ausência de luz tão profunda que mata - de olhos fechados. de peito aberto. sempre nos fizemos à escuridão - nos dias em que a luz é forte. abrimos os olhos e deixamo-nos cegar. morrer com um raio de luz atravessando o coração. para sempre - o que de mim se perdeu a mim voltará por fim








terça-feira, 26 de maio de 2015





ezgi polat






‘que nada existe e as coisas nascem no tocar
de minha mão inundada.
e é preciso esperar enquanto se morre,
e fica o campo sob o céu que se queima
preciosamente.
tenho agora a idade – e sei tudo.
digo: minha alegria é tenebrosa.
e eu desejaria levantar-me levemente
sobre as paisagens que se enchem de chuva
apaixonada.
desejaria estar em cima, no meio da alegria,
e abrir os dedos tão devagar que ninguém sentisse
a melancolia da minha inocência.
tanto desejaria ser destruído
por um lento milagre interior.’

herberto helder











uma linha de luz forte atravessa o vazio e vem aninhar-se no teu peito. em sobressalto alcanças o horizonte e olhas para trás. o meu corpo segue-te até às rochas – ao fundo ouvem-se os pássaros e uma corrente de ondas bravas cresce. no meio do areal a certeza do mundo que desaparece e. por segurança. eu seguro a tua mão – corres comigo pelo mar adentro. queres mostrar-me as sereias. e eu a dizer-te que sabia. que eram minhas irmãs de luz. princesas do sargaço – já tarde alta encostas-me ao teu peito e ficas a contar-me histórias – porque o amor não escolhe os tempos e os lugares. peço-te perdão por não te ter encontrado mais cedo. por não ter impedido os raios e as tormentas - e de noite mostro-te as constelações. conto-te as estrelas. e sei-te feliz quando a paz se faz verdade absoluta no teu peito




terça-feira, 19 de maio de 2015





laura makabresku











correm em mim os mortos
como água

herberto helder










perto. mais perto não há. dentro do coração. mais dentro. tão fundo que abrir os olhos é como desvelar vidas - às vezes o teu rosto nas minhas mãos. tão próximo da minha boca. a abrir sorrisos - quero dizer-te que o futuro é uma promessa que a vida prepara com extremo detalhe - quando por dentro da noite. meu corpo é feito de luz. como se pirilampos o cobrissem. para que na escuridão venhas ao meu encontro. e eu te possa dar colo. sossegar-te o coração com os meus grandes silêncios - o mundo que imagino nosso é feito de árvores altas. céu limpo. frutos nas mãos - se esse mundo existe. não sei. talvez só nos meus sonhos ou nesse outro lado da vida onde a felicidade se faz dos nossos corpos juntos - um dia. se a promessa se cumprir. serão mil e uma estrelas nos teus olhos. a iluminar a escuridão de quem não acredita no futuro. 









domingo, 17 de maio de 2015






ezgi polat









tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
herberto helder







tão dentro da noite. o corpo só. a despedir-se de todas as memórias possíveis - quis dizer: perdoa-me - mas o silêncio abandonou-me ao desespero de nunca mais saber de ti - sei que irás desaparecer. lentamente. mais dia menos dia. lembrar-me-ei devagar do teu rosto. adormecerei no azul escuro dos teus olhos. até que também eu desapareça para sempre - a pele tão quente. a alma tão fria. a quem darei a minha mão. que corpo apertarei com os meus braços. que coração dará sentido às minhas tão poucas palavras - o céu. já quase púrpura. quase rubro. despede-se também de mim. mas a luz não acaba e por dentro da escuridão brilham estrelas. tão fundas. encontram o meu coração e ali vivem para sempre - por fim a vida conhecerá o amor












sexta-feira, 24 de abril de 2015






elizabeth gadd











Paz das montanhas, meu alívio certo.
O girassol do mundo, aberto,
E o coração a vê-lo, sossegado.
Fresco e purificado,
O ar que se respira.
Os acordes da lira
Audíveis no silêncio do cenário.
A bem-aventurança sem mentira:
Asas nos pés e o céu desnecessário.
miguel torga








tantas vezes a tua voz me chega de longe como um pronúncio de sorte. dizes: está tanto frio aqui.     - mas é tão grande a sorte de te ouvir que não sei que dizes - um cheiro forte a ervas doces e no umbigo a força de sete mares - e sei da copa das árvores sob as margens do lago da nossa morte. a água tão parada. as folhas tão quietas. a barca tão distante - o teu peito farto de frio o meu farto de ternura. deixo cair a cabeça no teu ombro e tu respiras tão fundo que eu sei o caminho que o ar percorre dentro do teu corpo - 








segunda-feira, 20 de abril de 2015






mariam sitchinava







Neste lugar transitório mantém-me mendigo
Desviando-me de mim - não
Da tua mão. Dá-me como. Conduz-me
Para a esquerda e para a direita, roda-me sempre
Para a saída

Deixa-me ser a porta no eixo
Posta para trás pela mão de quem entra
Deixa-me ser o chão assiduamente

Quero ganhar a forma
Do degrau
A forma da mão que se abre quando nada tem
E quero a mão, no entanto. Interessam-me alguns instrumentos de posse

A língua para me calar
As rótulas, os calcanhares, os rins

O corpo inteiro, completo
Para morrer

daniel faria 








sonhei que corrias. o coração ia-te à frente. batendo em todas as portas - em nenhuma casa me encontra. nenhuma porta se abre - queria correr por ti. correr contigo. mas as minhas pernas imóveis. só em sonhos       - e nada te digo hoje. porque não posso. as minhas mãos não reconhecem o teu rosto e os meus olhos. por quem os dias passam como nuvens. envelhecem - para ti reservo um inacreditável mundo novo. onde guardar todas as alegrias. de onde pássaros não migrem. para onde tu sempre corresses. outra vida -


















domingo, 19 de abril de 2015







laura makabresku 











Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
herberto helder





tão só que o mundo se arrependa de me ter tido. que os homens não gostem de me ter amado. que todos os amigos me recordem como a palavra nunca pronunciada - enfim. tão só. ao longe barcos cruzam a paisagem e é como se eu assim me cruzasse comigo e me dissesse: dói-te tanto o corpo. porque sorris - a ninguém se deu o direito de questionar sorrisos. deixai-me passar pelo mundo de cabeça erguida. pesa-me tanto o corpo. sinto a alma tão longe. deixai-me cair de uma vez para sempre - todos os mares do mundo conhecem a minha pele. estranhos dividiram comigo os maiores sonhos. e ninguém decerto me conhece - se me ouvires chamar nada faças. a minha dor é tão grande que nada podes fazer. se me ouvires gritar. corre. o mais fundo que puderes. não tenhas medo. será escuro. será denso. mas a vida é feita disso e quem o nega não vive -