sexta-feira, 22 de abril de 2011
















Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e
dos restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, o os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono.

ana c.






às vezes do silêncio saem rostos. da minha infância fogem como loucos. pequenos rostos de gente antiga. acobardados escondem-se entre árvores e riem muito alto noite inteira. difícil é esquecer o que regressa. o cheiro das camélias. o ruído doente dos sinos. quero outro coração que não se lembre. um coração de quem não teve infância. dois olhos que não reconheçam rostos pequenos. uma boca que saiba falar silêncio. se ainda assim voltarem eu direi que é o destino.











quinta-feira, 21 de abril de 2011





































"Não é raro, tropeço e caio.
Às vezes, tombo feio de ralar
o coração todinho.
Claro que dói, mas
tem uma coisa:
a minha fé continua em pé”

caio fernando abreu







justo me ergo. cabeça baixa ao colo. não faço fitas. dói-me o corpo todo. tenho uma árvore ao peito. passam-me os dias. altos como nuvens cheias. anunciam-se sem luz. eu estou decerto numa altura em que vida de bicho seria fácil. posso culpar o tempo. que a chuva não tem remédio e faz mal ao coração. posso culpar o outro. de quem escrevo em tardes calmas. a mim não me culpe o mundo que justo me ergo e vou pelo corpo como quem cala. este silêncio de coração mal-dito.










terça-feira, 19 de abril de 2011


































Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!

miguel torga








lembrei-me do teu porta-moedas. hoje. a meu lado sentou-se uma senhora. tinha mais ou menos a idade com que morreste. contava as moedas ao colo. um avental muito velho e roto. falava sozinha. alto. eu ouvi deus amor gato reforma céu. o cabelo comprido branco caído no assento. ninguém deu conta mas a certa altura chorou. gotas grossas de tempestade nos olhos. queria abraçá-la como te abraçava quando choravas. quando a solidão te era tanta que falavas alto - para os meus botões dizias - queria inventar outro mundo onde ainda existisses. falar contigo até adormeceres de cansaço ou de medo. levar-te ao colo em direcção às estrelas. - boa noite avó, até amanhã.









segunda-feira, 18 de abril de 2011



































A ti, a quem falo de poesia, a ti
que assistes ao desenrolar de qualquer coisa que não compreendes,
respondo-te que também eu não compreendo,
que não há que compreender,
porque nada nos condena à fala
antes que as palavras aconteçam.

luís quintais








com um sorriso nos lábios dizias - eu não quero morrer esta noite - não morres - tranco a porta. dou três voltas à cerca. olho as nuvens. penso nas américas. sento-me na soleira e conto até vinte e três. respiro fundo e conto outra vez. estás acordada. sinto-o. olhas as árvores lá fora. paisagens de árvores amenas. pensas um pouco em mim. dois olhos feitos de ruas vazias. a noite vai fria. lenta. espero. . o baloiço parado no jardim. as flores adormecem voltadas para ele. queria uma terra grande. como a das flores. uma terra grande onde construir uma casa grande onde ser feliz contigo. um amor grande. do tamanho do céu. quando está sem nuvens ou pelo menos quando tem poucas. um amor que contasse até vinte e três. respirasse fundo e contasse outra vez. pensasse nas américas. olhasse as nuvens. desse três voltas à cerca. abrisse portas. tocasse a pele.












domingo, 17 de abril de 2011





















No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a.olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

álvaro de campos









é água o que bate no lugar do coração e em vez do peito o mar. tu sabes da infância as cores. púrpura flor. azul rio. branco pele. verde. muito verde erva. castanho terra. quando nos sentávamos em nuvens a guardar as casas. animais tristes à sombra de árvores altas. choramos muito. os dias atrás de outros vieram cedo. o corpo cresceu. grandes pernas e braços agora presos a um pequeno tronco. a boca fechou-se. mordeu todos os nomes e histórias que ouvira. os rostos que amamos passam por nós como terra que o vento teima em levar. muitos morreram. se fomos felizes não sei. em algum momento nevou. subimos à serra. e o branco pele frio ficou. se fomos felizes não sei. sabe-o deus. se deus houver. pelo teu aniversário subias árvores. comias castanhas. choravas nuvens. e ninguém sabia.














sábado, 16 de abril de 2011








































Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.

- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.

herberto helder






se fosse amor falavas. as noites são como encostas voltadas para o mar. um descampado. sem árvores. só gaivotas - escuta. quero ficar contigo. fazer-nos felizes. - não sei se existes ou se não. se fosse amor tu falavas. nem que fosse para dizer-me - não estou. sei que todos os lugares são teus. por onde passo é o teu rosto que me visita. mas tu não sabes. ou não queres. ou nem isto é. ou só eu o sinto - não te quero falar do coração. não - fecho os lábios para não deixar entrar ar. quero morder o teu nome. guardá-lo para sempre. dizê-lo dói no peito. amor.













quinta-feira, 14 de abril de 2011

















Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa -
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos olmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol. -
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.

herberto helder








se o corpo então fugir foge com ele. qualquer lugar por dentro da pele chama o coração. nenhum tempo de fugir foi mais preciso. foge. não te perguntes se voltas. nenhum regresso pode pensar-se por agora. o que interessa é partir. para dentro de água. esperar uma maré cheia. lançar os ossos ao sal. morrer inteiro. quando amanhã a memória te trouxer devolve ao rosto a boca. e falarás silêncio. com o corpo muito quieto. suspenso. falarás silêncio. parte. metade do mundo espera. a outra metade corre.