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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012


















Acende o cigarro, rapariga. E olha para a
rua onde passam transeuntes desconhecidos.
A tarde vai avançando e nós morrendo nela
ou morrendo nela as nossas esperanças,
a ilusão de eternidade. A beleza o que é?
Braços nus, o ventre liso nu, os cabelos caídos
nos ombros. A desconhecida concentra em si
a atenção do homem desocupado. Para
distrair-se, ele olha para ela e recorda-se
da história antiga do amor, reconstrói
ficções que sabe serem apenas ficções. Assim
passa o tempo, depois irá para casa. Quem
sabe o segredo mais secreto da existência
de cada um? Todos nós temos uma
história. Uns calam-na, outros murmuram
entre dentes os episódios essenciais, outros
encontram palavras com que construir o
poema hermético. Que diferença é que faz?
De tudo se constrói a existência, se alimenta
o sentido. Camisa branca à flor da pele, a
rapariga levantou-se e foi lá dentro do café
comprar qualquer coisa. Palavras, deixai-me
celebrar o vão movimento dos ponteiros do
relógio, os episódios vãos, a nossa morte.

joão camilo






por tudo o que te disse perdoa. talvez um dia quando as nuvens forem nossas descubras que tudo fiz para que sorrisses - talvez se o fogo não queimasse o corpo - se o dedo arder. sopra. vento brando norte. como palavras que se segredam pequenas como o silêncio. dessas que não nasceram para serem ditas em voz alta - que me dói assim esquecer o que tarde aprendi. amor - nasci para ser pássaro. perdoa.








segunda-feira, 21 de novembro de 2011












elena kholkina


















Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento


herberto helder










a beleza das coisas foi de férias para macau. dizem que lá os pássaros não adormecem. há manhãs claras e flores de cores que não sabemos que existem - a certeza de querer outro planeta. mais outono. uma cesta de fruta fresca na mesa. cevada quente. doce de abóbora e a ternura dos dias. para sempre - já ontem me custou a adormecer. a bell song chamava as noites e dentro da boca cresciam lágrimas










domingo, 9 de outubro de 2011












dusdin condren


Eu vejo a noite brilhar
Linda como a minha fada
Sinto o coração palpitar
Por esta menina Amada

Desço a ladeira da rua
Só para a ver passear
E penso: ai, ai, ai meu Deus
Porque, meu amor, desdenhar?

E brilha, e brilha como a Lua
Deusa mais bela, meu bem
Tua beleza em forma crua
Faz os outros te quererem também

Te vejo todo santo dia
Com seu vestido cor de anil
Passando da minha avenida
Vi um feixe de luz que se abriu

Queria te chamar "Querida"
Mas a querida fugiu
Levou toda minha vida
Com meu coração que partiu

Algum dia ainda vejo o sorriso
Que mostra antes de anoitecer
Quando teu corpo é abrigo
Tento não mais perecer

Eu juro que juro por Deus
E em tudo o que eu digo
Que os meus olhos são teus
Onde tudo é proibido

E se já desfaleceu
Aquele meu ombro amigo
Eu juro que juro por deus
Eu quero também ser querido

Confesso que eu pensei
Que tudo estava perdido
Mas foi aí que lembrei
Eu tenho sonhado contigo

Triste com o que imaginei
Eu sigo com o resto omitido
E o amor que eu ludibriei
E só um amor iludido.

samba pra joana
clara affonso & joão alves




às vezes no escuro. em silêncio. dormes. como uma andorinha que apanha uma corrente de vento forte para as áfricas. e assim adormeces nas nuvens. sonhas - não há continentes quando a noite volta. nem horas. e que é do tempo de ser primavera. partiu-se - é tarde e outono e o tempo não volta. muda. até as árvores são só de passagem. como o escuro. ou as andorinhas. um dia partem -










quinta-feira, 8 de setembro de 2011
































leonhard kätzel















quero dizer-te: não morras.
Nem me digas quem és, quem foste, como sabes
a língua que se fala sobre a terra.
Ao lume lanço
toda a vontade de viver, ser vivo,
a cautela do ar, ardendo em torno.
Passarei, terás passado em mim, só quero
dizer-te: não morras nunca, agora, nunca mais.

antónio franco alexandre














pergunto-me: se morresse continuarias a escrever-me poemas - eu sei. nomes próprios não sobrevivem na tua boca. então dá-me nome de mar. ou sol. ou céu. ou árvore. qualquer coisa pequena. fácil de chamar - quando os dias ficarem curtos o meu nome será como água quente na pele. irei com os pássaros dar de comer às nuvens altas - não há regressos quando se vai para o céu













domingo, 7 de agosto de 2011




















Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só de Teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que não quero ver.

Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o Teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a Terra
Em Primavera feroz precipitado.



sophia de mello breyner andresen







as aves vão. de passagem. talvez me recordem com alguma saudade. lá desses lugares por onde passam ou para onde migram quando o frio chega - tenho medo de morrer de frio. também eu deveria migrar - adeus. vou de viagem. mais tarde os meus ombros nus procurarão os teus. em tempos mais quentes. com lareiras acesas e o vento de leste zumbindo à janela.












terça-feira, 5 de julho de 2011

















e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

al berto



- teu nome de ave dá pena ao meu. não ter-te perto dói. porquê. porquê morrer - que grandes voos te reservam as asas. que noite é esta onde te espero ainda. por que céu andas tu. se andas. se há céu - teu nome era grande. meu corpo todo cabia nele. esticado. estendido. como roupa que seca molhada na corda - e dizer-te outras palavras mais sábias e inteiras. que se dizem quando a vida já não faz sentido e é um absurdo esperar dias felizes. por se ser triste - eu sou triste -










sexta-feira, 24 de junho de 2011












Escuta, escuta:
tenho ainda uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei,
não vai salvar o mundo,
não mudará a vida de ninguém
- mas quem é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco mais.
Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

eugénio de andrade






um mundo de água onde o meu coração coubesse inteiro. e em todas as florestas um sorriso que dentro levasse o teu rosto. o teu rosto para o sol voltado. à espera das folhas. quando caem as folhas. quando se erguem as árvores. quando chegas. quando partes. já não importa. se o mundo fosse assim grande. onde o teu coração no meu batesse. onde o teu corpo com o meu fosse. não importa para onde. que lugares há muitos. tantos.







quinta-feira, 26 de maio de 2011















Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na luta por um bem definitivo
Em que as coisas de amor se eternizassem.

sophia de mello breyner





o barco roubou ao mar as maiores ondas. foi numa dessas noites. quando o rosto da menina figurou a melhor metáfora do escritor - um grito soterrado - quero escrever sobre o sol. o fundo do mar. sem peixes. a escuridão devolvida à pele - finalmente a sós. despeço-me de ti como se estivesse a escrever o melhor romance. com final feliz. melodrama de sintaxe imperfeita - guardo para amanhã o adeus. a última página. o rosto em claro voltado para a água. sem pronto socorro. nem nada. só uma luz muito pura a impede de ir.
















sábado, 21 de maio de 2011



















o teu amor, bem sei, é uma palavra musical,
espalha-se por todos nós com a mesma ignorância,
o mesmo ar alheio com que fazes girar, suponho, os epiciclos;
ergues os ombros e dizes, hoje, amanhã, nunca mais,
surpreende o vigor, a plenitude
das coxas masculinas, habituadas ao cansaço,
separamo-nos, à procura de sinais mais fixos,
e o circuito das chamas recomeça.

é um país subtil, o olho franco das mulheres,
há nos passeios garrafas com leite apenas cinzento,
os teus pais disseram: o melhor de tudo é ser engenheiro,
morrer de casaco, com todas as pirâmides acesas,
viajar de navio de buenos aires a montevideu.
esta é a viagem que não faremos nunca, soltos
na minuciosa tarde dos lábios,
ágil pobreza.

permanentemente floresce o horizonte em colinas,
os animais olham por dentro, cheios de vazio,
como um ladrão de pouca perícia a luz
desfaz devagarmente os corpos.
ele exclama: quando me libertarás da tosca voz dormida,
para que seja
alto e altivo o coração das coisas? até quando aguardarei,
no harmonioso beliche, que a tua visão cesse?



antónio franco alexandre








às vezes o tempo pára. quando nos damos as mãos. o corpo todo nelas. e a boca na boca à margem da palavra. tão pequena. a luz forte do sol por detrás do rosto. quieto. nem as árvores mexem. um cheiro a terra. forte. a voz no ouvido: não fujas. amanhã é tarde para o coração. e eu sei teus olhos são a chuva. a tempestade. pela manhã o silêncio que acorda. durante a tarde a secura da pedra. fomos. decerto sobre nós só as manhãs claras ou as tardes de maio. amanhã é outro dia e os dias passam. não fujas.










domingo, 8 de maio de 2011
















esta paixão pelos objectos que guardaste
esta pele-memória exalando não sei que desastre
a língua de limos


al berto





a paixão tem manhãs de água. onde dormes sossegada. sob o lado esquerdo do corpo. o rosto voltado para a janela. leve luz na pele. o braço descoberto. vontade de ficar para sempre aqui. na feliz memória do teu corpo dormindo. a paixão vem sempre que te lembro. o corpo pequeno. quieto. sossega coração. não vou. nenhum outro lugar é meu. em nenhum outro mundo seria tão feliz. descansa. amanhã outra manhã nos espera. uma memória. a mesma.





















Acreditei que se amasse de novo
Esqueceria outros
Pelo menos três ou quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
Organizei a memória em alfabetos
Como quem conta carneiros e amansa
No entanto flanco aberto não esqueço
E amo em ti os outros rostos.

ana cristina césar




dentro da pele guardo essas histórias. tempo de abraços. e nenhum de nós aqui ficará para falar do lugar onde nos amamos. como se habitássemos ainda as nuvens. e nenhuma árvore tivesse descoberto dois corpos assim tão dados. que nem vento passava entre as peles. nem nada. fomos felizes. decerto. ninguém nos tira esse lugar onde fomos felizes. que levaremos connosco para debaixo de qualquer terra. ainda penso muito em ti. sei dos teus olhos. enormes castanhos. o mundo inteiro à minha espera. contavas nos dedos os anos como chuva. sabias de cor o nome dos meses. os dias. os anos. fomos sempre felizes. no tempo em que nos conheciam as águas. as flores. todas as noites. estrelas. o próprio silêncio. cúmplice dos melhores amantes. nos acompanhou. velaram o teu corpo quando morreste. sei-o. tão perto sempre estiveram. tão perto. impossível seria não lembrar-te neles. a boca. o beijo. um beijo de dias inteiros. para sempre.







domingo, 1 de maio de 2011

























"… cantada por um homem chamado Caruso que se diz que já morreu.
A voz era tão macia que até doía ouvir.
A música chamava-se "Una Furtiva Lacrima".
"Una Furtiva Lacrima" fora a única coisa belíssima na sua vida.
Enxugando as próprias lágrimas tentou cantar o que ouvira.
Mas a sua voz era crua e tão desafinada como ela mesma era.
Quando ouviu começara chorar.
Era a primeira vez que chorava, não sabia que tinha tanta água nos olhos.
Não chorava por causa da vida que levava:
porque, não tendo conhecido outros modos de viver, aceitara que, com ela, era "assim".
Mas também creio que chorava porque, através da música,
adivinhava talvez que havia outros modos de sentir,
havia existências mais delicadas e até com um certo luxo de alma.
Muitas coisas sabia que não sabia entender…"

clarice lispector








quando chorava. doíam-lhe todos os meses. e os anos passavam. lentos. a pouco e pouco todos parecem lembrá-la menos. a sua falta só no silêncio da casa. o lugar sempre vazio no sofá. a sua voz. tão triste. que me dizia - é noite todo o dia nesta janela- também eu chorei. no dia calmo de dezembro. em que não chovia. e as nuvens altas cantavam. partiu sozinha. nenhum anjo a esperava. nenhum deus a levou. foi com o sol.










sábado, 30 de abril de 2011

















Que tristeza tão inútil essas mãos
que nem sempre são flores
que se dêem:
abertas são apenas abandono,
fechadas são pálpebras imensas
carregadas de sono.

eugénio
de
andrade







. à boca da primavera. verde-água vivo na pele. a dor de não te dar a mão. sorrir. com a boca cheia dos nervos de não te ter. é o futuro. regressa com o vento. às paradas águas de maio. lembro o teu rosto. a pele dos dias vivos. uma saudade cresce no peito. como heras a subir muros. nenhum sonho é nosso. nenhum final feliz. e a nossa história é a certeza que a vida não perdoa.










sexta-feira, 29 de abril de 2011
















Amor é o olhar total, que nunca pode
ser cantado nos poemas ou na música,
porque é tão-só próprio e bastante,
em si mesmo absoluto táctil,
que me cega, como a chuva cai
na minha cara, de faces nuas,
oferecidas sempre apenas à água.

fiama hasse pais brandão






sempre do amor falámos. quando encostavas o coração ao meu peito. cabeça posta na minha. silêncio de mãos dadas. não sei se a verdade é esta. ou se há verdade. ou se há coração ou cabeça. nenhum corpo dos que tenho conhece agora o teu. e é a memória que teima. lança-me no teu sorriso. onde coube o futuro. todo tão grande na boca fechado. para sempre. silêncio. nenhum amor é esse. nenhum. onde procuro o coração não encontra. onde me encontram não está o meu coração.















quarta-feira, 27 de abril de 2011
















Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.

Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova.

eugénio de andrade








quero eu dizer: não há tarde em que não te lembre. lembrar-te é dar-te vida. como se viesses do outro mundo teu. onde te meteram. e o verde-musgo das pedras nos teus pés se tornasse. a tua sombra de corpo vulgar. passeia. e fazes ninho e abeiraste da montanha e gritas. eco. a tua voz regressa. por entre os pinheiros. socorre aos pássaros. vai com as nuvens. não me hei-de esquecer. não te hei-de perder. não. volto a dizer o teu nome como quem diz para sempre.









segunda-feira, 25 de abril de 2011





















não escrevo a ninguém, deixei de dar notícias.
ninguém precisa de saber onde me encontro, 
se cheguei bem, se vou partir, se mudei de rosto ou de máscara.
um pássaro, dois homens puxando redes.
até quando poderei suportar a minha própria ausência?
e a vertigem?

al berto








- chama - o teu nome do meio esqueci-o - clara - chora. não sei por que tantos nomes te deram. nem voltas a ser clara. nem tarde é esta. nem outra vez o rosto te procura. que corpo é esse. clara. esse que trazes. que boca fina. que olhos saídos. tão pobre. tanto às vezes choras - clara - por me esquecer do nome. por me esquecer - e sempre clara de manhãs cinzentas. noites tranquilas. pedras cobrindo ervas cobrindo terras cobrindo - memória. que dói dos pés à cabeça. clara. dos pés à cabeça. sem esquecer o coração.































minha querida maria. não me perguntes outra vez pela minha avó. terei de mentir-te. direi que foi finalmente em viagem. direi perto do mar. outro lugar verde. talvez. verde vento. montes altos da europa. praias quentes do equador. antártida. minha avó saiu da ibéria. minha avó foi de balão. ou nas asas de um pássaro grande. sentada. e os seus cabelos bonitos brancos cresceram tanto que formaram nuvens no céu. na sua saia ficaram presas todas as flores. é agora o mais belo jardim do mundo. ou direi que está sentada como de costume à porta de casa. lenço na mão. olhos cansados. sorriso. não maria. minha avó morreu faz tempo. faz tempo em todos os dias dezoito. triste de quem inventou os dias dezoito. morreu de velhice. ou de amor. partiu numa manhã fria. sabes como era. corria-lhe geada nas veias. morreu alegre. ou triste. no hospital de fafe.










sexta-feira, 22 de abril de 2011
















Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e
dos restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, o os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono.

ana c.






às vezes do silêncio saem rostos. da minha infância fogem como loucos. pequenos rostos de gente antiga. acobardados escondem-se entre árvores e riem muito alto noite inteira. difícil é esquecer o que regressa. o cheiro das camélias. o ruído doente dos sinos. quero outro coração que não se lembre. um coração de quem não teve infância. dois olhos que não reconheçam rostos pequenos. uma boca que saiba falar silêncio. se ainda assim voltarem eu direi que é o destino.











domingo, 17 de abril de 2011





















No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a.olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

álvaro de campos









é água o que bate no lugar do coração e em vez do peito o mar. tu sabes da infância as cores. púrpura flor. azul rio. branco pele. verde. muito verde erva. castanho terra. quando nos sentávamos em nuvens a guardar as casas. animais tristes à sombra de árvores altas. choramos muito. os dias atrás de outros vieram cedo. o corpo cresceu. grandes pernas e braços agora presos a um pequeno tronco. a boca fechou-se. mordeu todos os nomes e histórias que ouvira. os rostos que amamos passam por nós como terra que o vento teima em levar. muitos morreram. se fomos felizes não sei. em algum momento nevou. subimos à serra. e o branco pele frio ficou. se fomos felizes não sei. sabe-o deus. se deus houver. pelo teu aniversário subias árvores. comias castanhas. choravas nuvens. e ninguém sabia.














quinta-feira, 14 de abril de 2011

















Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa -
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos olmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol. -
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.

herberto helder








se o corpo então fugir foge com ele. qualquer lugar por dentro da pele chama o coração. nenhum tempo de fugir foi mais preciso. foge. não te perguntes se voltas. nenhum regresso pode pensar-se por agora. o que interessa é partir. para dentro de água. esperar uma maré cheia. lançar os ossos ao sal. morrer inteiro. quando amanhã a memória te trouxer devolve ao rosto a boca. e falarás silêncio. com o corpo muito quieto. suspenso. falarás silêncio. parte. metade do mundo espera. a outra metade corre.