terça-feira, 8 de agosto de 2023





laura makabresku 






“(...)


e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca do mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão.


(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)


um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade”


al berto










vou parir pela manhã a primeira flor na boca. uma palavra antes de ser primavera - trago no colo o infinito. o bréu da noite estrelada - sou do mundo mas o mundo não é meu - onde estás mãe que não te encontro nas estrelas - quando morrer vou para o céu. mas não vou com pressa porque amo a vida. as árvores e a tua pele - no teu corpo escrevi palavras eternas - espera - em que dia estamos. que tempo é este que já não é teu - respiro fundo - recordo-me dos teus lábios azuis gelados. num suspiro a vida fugiu-te. o coração vazio - eu grito e esperneio por dentro. porque a pele não permite que a dor se expresse - sem ar - volta depressa esta noite. mãe - sangue inquieto nas veias. corpo dormente. a vida está ausente - pausa - perder-te para me encontrar. sempre e cada vez mais. agora.












 

terça-feira, 25 de julho de 2023









 laura makabresku





Aquilo que ontem cantava
já não canta.
Morreu de uma flor na boca:
não do espinho na garganta.

Ele amava a água sem sede,
e, em verdade,
tendo asas, fitava o tempo,
livre de necessidade.

Não foi desejo ou imprudência:
não foi nada.
E o dia toca em silêncio
a desventura causada.

Se acaso isso é desventura:
ir-se a vida
sobre uma rosa tão bela,
por uma ténue ferida.

cecília meireles







uma ave no ombro. pára - o voo interrompido pela força do vento - um leve bater de asas. alívio. só o amor nos salva. quando o corpo perto - dentro. tão dentro. desperto - um coração contra o tempo - uma vida em alarme - quero adormecer no teu colo. como um passado perfeito. num pretérito esquecido - para que lugares foges quando a noite fria - entra. não esperes mais. ontem já era tarde - o corpo inteiro em chamas. por ti - um golpe de asa no peito - amor. 








segunda-feira, 24 de julho de 2023






elizabeth gadd





'Que o amor te salve nesta noite escura,
E que a luz te abrace na hora marcada,
Amor que se acende na manhã mais dura,
Quem há de chorar quando a voz se apaga?

Ainda há fogo dentro!
Ainda há frutos sem veneno!
Ainda há luz na estrada!
Podes subir à porta do templo,
Que o amor nos salve...'
pedro abrunhosa



um beijo inverno em agosto. a boca gelada na minha. e tudo foi como sopro - eu encolhi. mirrei. queria voltar para dentro da tua barriga. nascer de novo - mãe - não estava preparada para a tua morte e ainda assim vi tantas estrelas. um cosmos de amor e dor - caíste para o silêncio com a força de um trovão. a tua alma desapareceu num suspiro - já nos meus braços tudo tão longe. um grito mudo. um adeus imenso. o vazio - mãe. não me morras. fazes tanta falta neste mundo. como haveremos de viver sem ti - e a alegria a ir-se contigo. a desaparecer na tarde quente - abracei-me a ti. fechei os olhos - que o coração bata de novo. que tudo não passe de um susto - silêncio - ninguém me acode - uma corrente de lágrimas sem destino. sem propósito. o desespero de quem fica -  sem raiz. sem chão. sem colo. sem mãe 







 

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

 - não há recomeços sem luz. eu acredito - quando fixas o olhar assim nas nuvens. descobres que o céu é um lugar de crescimento. de aprendizagem. de renascimento - hoje fixei o olhar em ti. vi o céu. vi a luz - por vezes o mundo parece que corre à frente do teu coração e que todas as árvores vivem aprisionadas nesta terra - outras vezes dá-se a grande libertação de conceitos. de memórias. e tudo é. irremediavelmente. novo - também tu. como tu. novo - a despertar para uma outra realidade de ser. onde não há questionamento nem nada - onde ser invisível é fechar os olhos e deixar-se ir - não há lugares comuns. há desconhecidos. há memórias inesquecíveis. de outras eras. de tempos e espaços de longe - hoje fixei o olhar em ti. vi o céu. vi a luz - acredito

domingo, 12 de abril de 2020




















ezgi polat









o teu amor, bem sei, é uma palavra musical,
espalha-se por todos nós com a mesma ignorância,
o mesmo ar alheio com que fazes girar, suponho, os epiciclos;
ergues os ombros e dizes, hoje, amanhã, nunca mais,
surpreende o vigor, a plenitude
das coxas masculinas, habituadas ao cansaço,
separamo-nos, à procura de sinais mais fixos,
e o circuito das chamas recomeça.

é um país subtil, o olho franco das mulheres,
há nos passeios garrafas com leite apenas cinzento,
os teus pais disseram: o melhor de tudo é ser engenheiro,
morrer de casaco, com todas as pirâmides acesas,
viajar de navio de buenos aires a montevideu.
esta é a viagem que não faremos nunca, soltos
na minuciosa tarde dos lábios,
ágil pobreza.

permanentemente floresce o horizonte em colinas,
os animais olham por dentro, cheios de vazio,
como um ladrão de pouca perícia a luz
desfaz devagarmente os corpos.
ele exclama: quando me libertarás da tosca voz dormida,
para que seja
alto e altivo o coração da coisas? até quando aguardarei,
no harmonioso beliche, que a tua visão cesse?

antónio franco alexandre





sei: o caminho nunca acaba. princípio e fim. no coração que sente. na alma que procura - e o que é vive em mim. tão forte que lhe reconheço o traço. como um rosto bendito à procura de Deus nas pedras. no mar. na estrela. na vida - pergunto: ainda acordas com os olhos vivos de esperança - é de luz que se fazem os teus dias - caminhas com o coração leve - é por dentro de ti que os milagres se dão como sorrisos. tão certos que a fé não se acaba nunca. tão cheios que o mundo te cega de amor - és. o lugar feliz. a memória perene. a saída do vão. a presença de tudo. o definitivo - e tanto me dás que no peito uma âncora - e tanto me dás que no peito ar puro: sussurro - santifica-me o nome na boca. à boca de tudo o que é. agora - não sei. adivinho o futuro: dois peitos abertos como braços ao vento

mar







domingo, 24 de novembro de 2019
















às vezes encontro-te na margem do futuro à espera - o que esperas quando assim me olhas como se visses o caminho - haverá caminho. seremos o caminho - nesta viagem de ser em consciência perdi-me da paisagem. foco-me na essência - um manto verde. um sopro de neblina. sou agora a paisagem - o meu coração dormente pela tua falta- não te quero esquecer. perpetuar-te como a uma vertigem - dou conta do mundo todo no coração tardio. complicada é a vida vista de cima - desapareces no início dos dias. reapareces já noite alta com conversas sinceras - que fez de ti a escuridão e o bréu. pergunto. porque foges de nós - ao fundo a esperança. uma nesga de luz forte reacende o fogo - ilumino-me como uma fogueira. ardo o teu nome de uma vez para sempre. 










quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019








eu. tantas vezes só. dentro do meu coração. esperando               - que te regresses por dentro da mata e me mostres que estar vivo é a maior bênção - a luz consome-me e quando fecho os olhos é o teu rosto que vejo. todo iluminado - nunca esperei que te roubassem de mim assim. tão forte. que as minhas raízes se abriram em ferida de 2010 até hoje - sento-me em todos os precipícios. tão pequeno é mundo quando visto do alto. tão pequenas as mágoas. sinto a copa das árvores nos meus pés. inspiro ar puro até levitar - acredito que me possam ainda salvar. que este estar assim inteiro te possa regressar - procuro pelo melhor de mim nas nossas memórias e reconheço-me no teu sorriso - que azul imenso. pelos teus olhos dentro. mergulho - o teu corpo aberto para me receber. que graça tão grande. que sobrevivência póstuma - quero ficar. quero partir. a mulher que sou grita por ti. somos as duas uma só. eterna




terça-feira, 22 de maio de 2018













na tua falta escrevo. para não morrer. para que me não levem os pesadelos - é que há dias em que a morte me ronda. como um desassossego lento. a inquietar-me por dentro até aos ossos - procuro por ti. sinto a tua luz movimentar-se ténue em meu redor à procura da luz em mim. uma luz que se desvanece - a maldade da humanidade tem uma escuridão tamanha. e escrever-te isto dói pela não esperança que é admitir que sendo um óasis não chego para acalmar de vez todos os desertos de amor - entardeço com o mar no horizonte. e haverias de sorrir por me ver finalmente entardecer com água ao fundo - que pintura bonita é esta de assim ver perder-se o céu no mar e o mar no céu. um azul imenso a atenuar as sombras - e a beleza da casa. com peixes dentro. regressa-me. sinto o gosto da vida. a pele fresca no fim de tarde e sorrindo apareces-me como um fantasma. a pairar numa nuvem de luz inesgotável. tão singela. clara - que me esperes e guardes nesse lado do mundo onde a dor não perdura. onde o amor não se afugenta por sombras e escuridão. que me ampares e acalmes quando a esperança fugir e regresses sempre até mim quando a luz me faltar 











sexta-feira, 20 de abril de 2018




jonna jinton





Ninguém
oferece flores.

A flor,
em sua fugaz existência,
já é oferenda.


Talvez, alguém,
de amor,
se ofereça em flor.


Mas só a semente
oferece flores.

mia couto














e de manhã o canto dos pardais e um cheiro a musgo a invadir o corpo: quero uma cabana de costas voltadas para o mundo e coração aberto para o céu - construíste-me uma cabana de paus tratados e ervas daninhas. dizias que dali se viam melhor as estrelas - acreditei em cada palavra tua. fiz-me futuro em cada memória. por seres tu. por te ter em mim a amanhecer em cada dia novo. a ser luz e vida e graça em cada palavra - a vida fez-me de silêncio - orai e vigiai: palavra do senhor - orei e vigiei até as pálpebras se não aguentarem abertas. fecho os olhos à vida. quero consumir-me de amor para sempre - enquanto eu for vida escreverei o teu nome em cada árvore: valentina - tudo está consumado na memória do teu abraço. num silêncio perene até desaparecer à margem - avó. fiz-me árvore. cresci. vou encontrar-te agora para um sorriso inteiro.












terça-feira, 3 de abril de 2018




jonna jinton






As mãos pressentem a leveza rubra do lume
 repetem gestos semelhantes a corolas de flores
 voos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
 encalhada como um barco nos confins do olhar

 ergues de novo as cansadas e sábias mãos
 tocas o vazio de muitos dias sem desejo e
 o amargor húmido das noites e tanta ignorância
 tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
 quase nada

  al berto





tão longe que o mundo não nos pudesse agarrar e o corpo pequeno. de repente. cai para dentro do teu peito. o teu coração feito ninho. onde é possível nascer uma e outra vez. as vezes que forem precisas. até se ter força para enfrentar a escuridão de peito aberto - sigo os teus passos como sonhos que se tornaram estrelas no céu - em todas as noites percorro as tuas rugas. quero enfrentar o vazio. a certeza de ser só na vida - peço-te que regresses ao castanho dos meus olhos. ilumina-me - sei que me acompanhas e me percorres como eu te percorro. passo a passo. peço-te que regresses e te faças árvore. que me abraces forte até o coração ganhar raízes - voo com os pássaros. migro nas estações. rebento de amor. sufoco de tristeza. há em mim um sentir que não compreendo. um sentir tamanho que entontece - talvez um dia descubram que vivi como uma danada. sem ânsia. sem vergonha. sem dor. sem nada. pelo gosto de viver e ser assim - até ao fim dos meus dias descobrir-me em cada amanhecer e só tu. só tu me aplaudias em cada queda e reconhecias as minhas cicatrizes. como marcas de aprendizagem da alma - estaremos sempre juntas. sangue do meu sangue. alma da minha alma. 





domingo, 4 de março de 2018




Elizabeth Gadd









Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.

Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.

Fiama Hasse Pais Brandão






para me perder de vez em cada sorriso - subindo o rio. o caminho estreita-se. a textura dos seixos no pés nus - cai o sol nas paisagens da vida. tenho trinta anos e ainda não fiz obra - sou mulher de água e luz - deixo-me ir por entre a vereda. haveria daqui construir uma casa de madeira. com janelas e portas abertas para receber - uma casa. um lugar feito de memórias. memórias de dias felizes onde descansar o corpo quando a solidão me assola - cada partícula de luz que compõe o meu corpo grita o teu nome pela tarde adentro - o coração puro. feito de bondade. renascerá para um novo mundo. em cada olhar manifesta agora uma nova terra








segunda-feira, 22 de janeiro de 2018





teresa q.















Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

ferreira gullar




sobra-me o vento. falta-me o ar. estou na beira do penhasco mais alto da serra de sintra. já não sei voar - recordo-me dos precipícios de cesariny. quero morrer como as nuvens. perder forma. dissolver-me para sempre - por vezes tento a sorte. lanço-me às árvores. faço-me raiz do mundo. perco as sombras. outras vezes é o teu nome que me visita. consome - quero dar largas à realidade. fazer-me margem. voltar-me inteira. quero partir. de dentro para fora. reaver-me - mantenho-me ocupada. imagino como seria. dou voltas e voltas na rua de cima - quero alguém que me espante como um poema. que não principia nem acaba - regresso das nossas conversas sempre com o peito aberto. coração fora. cabeça adentro - quero escrever a eternidade em cada pulso. a eternidade é não saber de nenhum futuro - esqueço-me do mundo. lembro-me de tudo. só para me fazer ao largo. andar direita. ganhar pinta. ser senhora - um dia serei eu a obra. a manifestação plena do sonho. por agora nunca. 








quinta-feira, 28 de dezembro de 2017






jonna jinton








Recomeça....
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...

miguel torga






e assim se fez mais um dia - a casa está gasta. há muito que as heras se apoderaram dela - que nome dar agora ao vazio. abandonar-me à memória das tuas mãos fiando. vidas - digo o teu nome com o cuidado de quem escreve um poema. tem de ser perene. tem de ser inteiro. manter-se fiel às rugas de cada dedo - fica comigo para sempre avó. talha-me as dadas - tenho estado doente. do coração e das ideias. faz-me aquela reza. toma conta de mim. que a loucura de me saber humana e a pressa de voltar para trás me atormentam - volto ao casulo - digo: avó quero ser como um pássaro - dizes: e serás minha filha. serás tudo o que quiseres - encurto a respiração. deixo-me entristecer - as montanhas a perder de vista. vou lançar o peito às paisagens. perder-me nelas. esquecer-me - nenhum natal me lembro de passar contigo. de nada me arrependo mais. a memória de cada natal sem ti pesa-me tanto. quero entregar-te todos os natais. fazer-te memória deles - consagro o meu corpo ao imaculado coração de maria. como me ensinaste. a intenção fará da oração o que eu quiser - estás sentada na mesa da cozinha. não te vejo. sinto-te. avó dá-me um sinal. visita-me em sonhos. amansa-me a noite. sossega o meu coração









quinta-feira, 14 de dezembro de 2017




Elizabeth Gadd









Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.




Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos - voltarão?

Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
- Ó vida futura! Nós te criaremos.

Carlos Drummond de Andrade 




recordo o teu nome. intenso como um batimento cardíaco. sílaba a sílaba, até adormecer - não estava preparada para perder-te - atirei-me ao precipício e fiz-me luz. uma luz forte como a tua - a mesma força de quem se fez terra. noite. madrugadas frias. sem nenhum medo que perturbe o corpo - na ânsia de te reencontrar entreguei o meu corpo à beleza das árvores. ao voo dos pássaros. às brisas de vento - na natureza fiz um ninho de amor - confio - que a Terra ainda te há-de trazer de volta. abrigar-me no teu peito - cada dia é uma bênção. vivo em plenitude. o meu propósito é este. encontrar a beleza do mundo e manifestá-la em cada sorriso. ser vida  













terça-feira, 17 de outubro de 2017





jonna jinton






Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.

Miguel Torga








inspira-me a ser melhor ser humano - por dentro da noite nas horas mais mortas. quando o mundo adormece. ajuda-me a cobrir de estrelas o céu mais escuro - ilumina-me - como se iluminam as almas que partem para outros mundos mais dentro. por dentro da luz - aceita-me como sou. a partícula de luz tão pequenina. à procura da beleza do mundo no coração de cada homem - ilumina-me - na sensatez da minha alma. abraça-me. serena-me. que a missão de amar-me é tão difícil quando descubro que o meu amor ainda não consegue impedir incêndios - que o meu amor te inspire a contemplar a beleza do mundo e encontrar magia em cada pedaço de vida. e me inspire a manifestar essa magia em cada gesto - o divino que procuramos sempre esteve tão perto. tão dentro de cada um de nós - entende que existo. sou luz. vivo em silêncio. caminho com amor - caminha comigo. em solitude. em oração - estamos tão unidos. a nossa consciência ainda não compreende isso. mas estamos todos enlaçados e tudo é tão maior do que nós






segunda-feira, 25 de setembro de 2017






elizabeth gadd















Yo que crecí dentro de un árbol
tendría mucho que decir,
pero aprendí tanto silencio
que tengo mucho que callar
y eso se conoce creciendo
sin otro goce que crecer,
sin más pasión que la substancia,
sin más acción que la inocencia,
y por dentro el tiempo dorado
hasta que la altura lo llama
para convertirlo en naranja.

pablo neruda






escuto silêncio de boca-a-boca. de porta a porta. escuto o vazio - por dentro da noite. em todas as noites. e dias. em que não existes na minha vida - silêncio -  a profundidade do mundo no teu olhar de luz e verde-azul de paz - por onde te ocupam os dias - quero dizer-te que o meu peito te guarda para sempre. como uma imagem feita de amor puro - que o meu coração se inquieta pela lembrança do teu. para sempre - que mundos te guardam e te apartam de mim. de tudo. menos da minha raiz - que toda a beleza da vida eu guardo para ti. marcas de íris no castanho de mim - é errado viver deste lado do planeta. onde não existes. que é triste assim estar e ser. longe -  acércate a mi alma






terça-feira, 12 de setembro de 2017




Elizabeth Gadd








e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

al berto









nos dias de maior fragilidade sonho ser pássaro. deixo de enfrentar o vento com as asas. desisto de forçar o voo e entrego-me à corrente. plano com o peito pluma aberto - acredito em proteção divina. nas asas de anjo/pássaro que me cercam e amparam as quedas livres - sou livre. livre do mundo. livre da vida. mas não me livro do medo das pessoas. o medo do amor mais puro. do amor mais duro. o amor que entrega. que deixa ir. que livra - escreverei um tratado às pessoas que me fizeram sorrir - perto dos trinta custa-me mais o tempo desperdiçado. quero mais a solidão. o silêncio. a delicadeza. a serenidade. deixar cair o corpo com o dia. deixar sorrir a noite na boca - tenho esperança. tanta. tão forte - reconheço. do alto desta cordilheira. que todos os sonhos são livres. como amores. livres de partir. livres para deixar ir. livres de me livrar - pelo sonho caminho. com o coração na boca e um par de mãos verde esperança a decifrar o futuro. 




segunda-feira, 21 de agosto de 2017








jonna jinton







silencio
yo me uno al silencio
yo me he unido al silencio
y me dejo hacer
me dejo beber
me dejo decir

apuñalada por lo ausente
por la espera bastarda
renaceré a los juegos terribles
y lo recordaré todo

alejandra pizarnik




tudo o que aprendi do mundo foi o teu nome. por dentro dos dias escrevo consoantes e vogais. as do teu nome. um nome próprio de princesas. de fadas. de jóias raras. de noites claras - tantas luas novas vi nascer nos teus olhos. tantas noites cobertas de estrelas. a todas dei o mesmo nome. a mesma idade. o mesmo jeito triste de sonhar acordada - eras tu e continuarás para sempre a ser tu. a dar nome às luas novas de todos os planetas - existo dentro do silêncio. guardo em mim todas as palavras que se dizem de coração aberto sem que nenhuma boca se abra. perante a admiração dos olhos - cada dia é uma nova conquista. a conquista da vida que sempre se soube só. e deserta-me o corpo. tão cheio de sentimento - sinto o silêncio pairar sobre mim. como uma aura de luz socorrendo a minha pele. purgando-a das pressas deste mundo onde me acho - encontro-me longe - tenho fé nos deuses que habitam esta terra mascarados de pessoas comuns. heróis com nomes próprios como o teu. é essa fé que preenche quando a tristeza dos rostos se abate sobre mim. é dessa fé que me alimento. para essa fé caminho com o corpo feito de luz e no peito aberto o coração em carne viva - neste tempo-espaço eclipse que a terra conhece. sou lunar e sinto-me nova. 


















segunda-feira, 2 de janeiro de 2017






elizabeth gadd






Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas

Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são sítios desviados
Do lugar



Daniel Faria













esta noite sonhei com árvores altas e a tua voz segredando idas - por onde ir agora que tudo ardeu. nenhum laço me prende. nenhuma aragem me conhece. por onde partir. por que viagens procurar teu corpo inanimado - lembro-me dos teus silêncios. procuro preenche-los de afeto. e no fundo dos braços um ninho de pássaro. uma casinha de madeira - vem. quero ser capaz de mostrar-te que o tempo não me arrancou o sorriso. que na boca me nasceram jardins. que em nenhum lugar deixei a minha esperança. tantas vezes tão maior que eu - vem. quero dar-te outro mundo que este não me compreende. e dizer-te do voo que o corpo conheceu aquando do abandono. reconforta-me saber que melhores horas te aguardam. que outros homens te encantam. que outras nuvens te acolhem - a terra prometida regressa agora do alto do céu - quando ninguém acreditou eu vi. eu sei. quando ninguém por ti chorou. eu esperei - havemos de nos encontrar. está escrito e dito. e ninguém pode alterar promessas e testemunhos - e a maior fé é esta: dar sem medida








quinta-feira, 21 de julho de 2016






elizabeth gadd






Walk as if you are kissing the Earth with your feet.
thích nhất hạnh







ocupar de silêncio a casa. restabelecer os limites do medo que a alma não consegue apagar. respirar. tão fundo que o tempo o escute. tão alto que o mundo me fuja - permanecer em contemplação. encontrando-me em cada ser que a natureza envia ao meu encontro. humano e não humano. sempre vivo - trago a beleza do mundo tão funda em mim. incrostada na pele. e sei que o silêncio se reproduz nos meus gestos. é por dentro de mim que a terra ganha cor. que os pés se fazem caminho. que a alegria se faz sempre - à descoberta - que nenhuma ânsia perturbe cada passo. que nenhum tempo me ocupe. quero permanecer. fundir-me na luz. voar como os pássaros. chorar como os fetos. ser - ser este silêncio enorme que me habita. para sempre.