domingo, 12 de abril de 2020




















ezgi polat









o teu amor, bem sei, é uma palavra musical,
espalha-se por todos nós com a mesma ignorância,
o mesmo ar alheio com que fazes girar, suponho, os epiciclos;
ergues os ombros e dizes, hoje, amanhã, nunca mais,
surpreende o vigor, a plenitude
das coxas masculinas, habituadas ao cansaço,
separamo-nos, à procura de sinais mais fixos,
e o circuito das chamas recomeça.

é um país subtil, o olho franco das mulheres,
há nos passeios garrafas com leite apenas cinzento,
os teus pais disseram: o melhor de tudo é ser engenheiro,
morrer de casaco, com todas as pirâmides acesas,
viajar de navio de buenos aires a montevideu.
esta é a viagem que não faremos nunca, soltos
na minuciosa tarde dos lábios,
ágil pobreza.

permanentemente floresce o horizonte em colinas,
os animais olham por dentro, cheios de vazio,
como um ladrão de pouca perícia a luz
desfaz devagarmente os corpos.
ele exclama: quando me libertarás da tosca voz dormida,
para que seja
alto e altivo o coração da coisas? até quando aguardarei,
no harmonioso beliche, que a tua visão cesse?

antónio franco alexandre





sei: o caminho nunca acaba. princípio e fim. no coração que sente. na alma que procura - e o que é vive em mim. tão forte que lhe reconheço o traço. como um rosto bendito à procura de Deus nas pedras. no mar. na estrela. na vida - pergunto: ainda acordas com os olhos vivos de esperança - é de luz que se fazem os teus dias - caminhas com o coração leve - é por dentro de ti que os milagres se dão como sorrisos. tão certos que a fé não se acaba nunca. tão cheios que o mundo te cega de amor - és. o lugar feliz. a memória perene. a saída do vão. a presença de tudo. o definitivo - e tanto me dás que no peito uma âncora - e tanto me dás que no peito ar puro: sussurro - santifica-me o nome na boca. à boca de tudo o que é. agora - não sei. adivinho o futuro: dois peitos abertos como braços ao vento

mar







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