segunda-feira, 22 de janeiro de 2018





teresa q.















Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

ferreira gullar




sobra-me o vento. falta-me o ar. estou na beira do penhasco mais alto da serra de sintra. já não sei voar - recordo-me dos precipícios de cesariny. quero morrer como as nuvens. perder forma. dissolver-me para sempre - por vezes tento a sorte. lanço-me às árvores. faço-me raiz do mundo. perco as sombras. outras vezes é o teu nome que me visita. consome - quero dar largas à realidade. fazer-me margem. voltar-me inteira. quero partir. de dentro para fora. reaver-me - mantenho-me ocupada. imagino como seria. dou voltas e voltas na rua de cima - quero alguém que me espante como um poema. que não principia nem acaba - regresso das nossas conversas sempre com o peito aberto. coração fora. cabeça adentro - quero escrever a eternidade em cada pulso. a eternidade é não saber de nenhum futuro - esqueço-me do mundo. lembro-me de tudo. só para me fazer ao largo. andar direita. ganhar pinta. ser senhora - um dia serei eu a obra. a manifestação plena do sonho. por agora nunca. 








quinta-feira, 28 de dezembro de 2017






jonna jinton








Recomeça....
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...

miguel torga






e assim se fez mais um dia - a casa está gasta. há muito que as heras se apoderaram dela - que nome dar agora ao vazio. abandonar-me à memória das tuas mãos fiando. vidas - digo o teu nome com o cuidado de quem escreve um poema. tem de ser perene. tem de ser inteiro. manter-se fiel às rugas de cada dedo - fica comigo para sempre avó. talha-me as dadas - tenho estado doente. do coração e das ideias. faz-me aquela reza. toma conta de mim. que a loucura de me saber humana e a pressa de voltar para trás me atormentam - volto ao casulo - digo: avó quero ser como um pássaro - dizes: e serás minha filha. serás tudo o que quiseres - encurto a respiração. deixo-me entristecer - as montanhas a perder de vista. vou lançar o peito às paisagens. perder-me nelas. esquecer-me - nenhum natal me lembro de passar contigo. de nada me arrependo mais. a memória de cada natal sem ti pesa-me tanto. quero entregar-te todos os natais. fazer-te memória deles - consagro o meu corpo ao imaculado coração de maria. como me ensinaste. a intenção fará da oração o que eu quiser - estás sentada na mesa da cozinha. não te vejo. sinto-te. avó dá-me um sinal. visita-me em sonhos. amansa-me a noite. sossega o meu coração









quinta-feira, 14 de dezembro de 2017




Elizabeth Gadd









Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.




Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos - voltarão?

Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
- Ó vida futura! Nós te criaremos.

Carlos Drummond de Andrade 




recordo o teu nome. intenso como um batimento cardíaco. sílaba a sílaba, até adormecer - não estava preparada para perder-te - atirei-me ao precipício e fiz-me luz. uma luz forte como a tua - a mesma força de quem se fez terra. noite. madrugadas frias. sem nenhum medo que perturbe o corpo - na ânsia de te reencontrar entreguei o meu corpo à beleza das árvores. ao voo dos pássaros. às brisas de vento - na natureza fiz um ninho de amor - confio - que a Terra ainda te há-de trazer de volta. abrigar-me no teu peito - cada dia é uma bênção. vivo em plenitude. o meu propósito é este. encontrar a beleza do mundo e manifestá-la em cada sorriso. ser vida  













terça-feira, 17 de outubro de 2017





jonna jinton






Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.

Miguel Torga








inspira-me a ser melhor ser humano - por dentro da noite nas horas mais mortas. quando o mundo adormece. ajuda-me a cobrir de estrelas o céu mais escuro - ilumina-me - como se iluminam as almas que partem para outros mundos mais dentro. por dentro da luz - aceita-me como sou. a partícula de luz tão pequenina. à procura da beleza do mundo no coração de cada homem - ilumina-me - na sensatez da minha alma. abraça-me. serena-me. que a missão de amar-me é tão difícil quando descubro que o meu amor ainda não consegue impedir incêndios - que o meu amor te inspire a contemplar a beleza do mundo e encontrar magia em cada pedaço de vida. e me inspire a manifestar essa magia em cada gesto - o divino que procuramos sempre esteve tão perto. tão dentro de cada um de nós - entende que existo. sou luz. vivo em silêncio. caminho com amor - caminha comigo. em solitude. em oração - estamos tão unidos. a nossa consciência ainda não compreende isso. mas estamos todos enlaçados e tudo é tão maior do que nós






segunda-feira, 25 de setembro de 2017






elizabeth gadd















Yo que crecí dentro de un árbol
tendría mucho que decir,
pero aprendí tanto silencio
que tengo mucho que callar
y eso se conoce creciendo
sin otro goce que crecer,
sin más pasión que la substancia,
sin más acción que la inocencia,
y por dentro el tiempo dorado
hasta que la altura lo llama
para convertirlo en naranja.

pablo neruda






escuto silêncio de boca-a-boca. de porta a porta. escuto o vazio - por dentro da noite. em todas as noites. e dias. em que não existes na minha vida - silêncio -  a profundidade do mundo no teu olhar de luz e verde-azul de paz - por onde te ocupam os dias - quero dizer-te que o meu peito te guarda para sempre. como uma imagem feita de amor puro - que o meu coração se inquieta pela lembrança do teu. para sempre - que mundos te guardam e te apartam de mim. de tudo. menos da minha raiz - que toda a beleza da vida eu guardo para ti. marcas de íris no castanho de mim - é errado viver deste lado do planeta. onde não existes. que é triste assim estar e ser. longe -  acércate a mi alma






terça-feira, 12 de setembro de 2017




Elizabeth Gadd








e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

al berto









nos dias de maior fragilidade sonho ser pássaro. deixo de enfrentar o vento com as asas. desisto de forçar o voo e entrego-me à corrente. plano com o peito pluma aberto - acredito em proteção divina. nas asas de anjo/pássaro que me cercam e amparam as quedas livres - sou livre. livre do mundo. livre da vida. mas não me livro do medo das pessoas. o medo do amor mais puro. do amor mais duro. o amor que entrega. que deixa ir. que livra - escreverei um tratado às pessoas que me fizeram sorrir - perto dos trinta custa-me mais o tempo desperdiçado. quero mais a solidão. o silêncio. a delicadeza. a serenidade. deixar cair o corpo com o dia. deixar sorrir a noite na boca - tenho esperança. tanta. tão forte - reconheço. do alto desta cordilheira. que todos os sonhos são livres. como amores. livres de partir. livres para deixar ir. livres de me livrar - pelo sonho caminho. com o coração na boca e um par de mãos verde esperança a decifrar o futuro. 




segunda-feira, 21 de agosto de 2017








jonna jinton







silencio
yo me uno al silencio
yo me he unido al silencio
y me dejo hacer
me dejo beber
me dejo decir

apuñalada por lo ausente
por la espera bastarda
renaceré a los juegos terribles
y lo recordaré todo

alejandra pizarnik




tudo o que aprendi do mundo foi o teu nome. por dentro dos dias escrevo consoantes e vogais. as do teu nome. um nome próprio de princesas. de fadas. de jóias raras. de noites claras - tantas luas novas vi nascer nos teus olhos. tantas noites cobertas de estrelas. a todas dei o mesmo nome. a mesma idade. o mesmo jeito triste de sonhar acordada - eras tu e continuarás para sempre a ser tu. a dar nome às luas novas de todos os planetas - existo dentro do silêncio. guardo em mim todas as palavras que se dizem de coração aberto sem que nenhuma boca se abra. perante a admiração dos olhos - cada dia é uma nova conquista. a conquista da vida que sempre se soube só. e deserta-me o corpo. tão cheio de sentimento - sinto o silêncio pairar sobre mim. como uma aura de luz socorrendo a minha pele. purgando-a das pressas deste mundo onde me acho - encontro-me longe - tenho fé nos deuses que habitam esta terra mascarados de pessoas comuns. heróis com nomes próprios como o teu. é essa fé que preenche quando a tristeza dos rostos se abate sobre mim. é dessa fé que me alimento. para essa fé caminho com o corpo feito de luz e no peito aberto o coração em carne viva - neste tempo-espaço eclipse que a terra conhece. sou lunar e sinto-me nova.