quinta-feira, 5 de setembro de 2013


























laura makabresku







andávamos sem nos procurarmos,
 mas sabendo que andávamos
 para nos encontrarmos.

 júlio cortázar







a idade não perdoa e o corpo cresce - deixo esta casa para regressar aos vales da minha infância. uma nesga de vento nos cabelos. no rosto. no corpo. na pele fria. sob o olhar atento das madrugadas de agosto - não quero esquecer. o latidos dos cães nos primeiros dias de setembro e uma voz muito fina chamando o meu nome. como se só o meu nome existisse e o mundo fosse o medo de me perder - era tanto sol por entre as árvores que os ramos ardiam nos olhos das crianças e era como se a terra não existisse e tudo fosse só luz - quero morrer de encontro ao sol.








quarta-feira, 4 de setembro de 2013






laura makabresku






Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir a voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.


 antónio botto







setembro tardava no gosto de amoras bravas. no corpo morno das horas. nas flores já secas nas jarras. no rosto pálido dos avós. na minha esperança ténue - assim tardasse agosto e todos os meses que o antecedem. assim tardasse a morte - às vezes esqueço o teu nome e é como se a sombra dos pinheiros no monte me aclarasse a memória. e é o teu rosto de encontro ao meu em passo calmo. e é o teu corpo ao meu abraçado. e é como se fosse presente o que já só passado - como uma fotografia que o bolso não larga e a pele gasta. assim te dou vida. nos tantos dias que tenho. nos tantos anos que restam. da tanta vida que falta -











quarta-feira, 3 de julho de 2013

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mariam sitchinava









 «Vou contar uma história. Havia uma rapariga que era maior de um lado que do outro. Cortaram-lhe um pedaço do lado maior: foi de mais. Ficou maior do lado que era dantes mais pequeno. Cortaram. Ficou de novo maior do lado que era primitivamente maior. Tornaram a cortar. Foram cortando e cortando. O objectivo era este: criar um ser normal. Não conseguiam. A rapariga acabou por desaparecer de tão cortada nos dois lados.»

herberto helder




como uma sombra de nuvem atravessando os prédios. assim é o futuro - sei que existe um mundo novo lá fora. e quando abrir os olhos um mundo novo cheio de luz aquecerá o corpo - não quero abrir os olhos agora. é das trevas que faço casa - quando voltarem as estações frias atiro o corpo ao mar. quero morrer com os peixes. de sal na boca e escamas no coração - certas vozes gritam o pânico de não haver mundo e eu em silêncio. fico. talvez o mundo seja esta maneira de ficar. assim muda. sem dó nem si. nem de si dó - amanhã alguém morre de luz.





sexta-feira, 24 de maio de 2013







laura makabresku 



 Quando entre nós
só havia uma carta certa
a correspondência completa
o trem os trilhos
a janela aberta uma certa paisagem
sem pedras ou sobressaltos
meu salto alto
em equilíbrio
o copo d’água
a espera do café

ana c.





deram-me um espaço vazio e eu construí a noite. deram-me um corpo e eu construí o dia - se não me dessem nada não haveria mundo e o tempo seria um lugar vazio à espera dos corpos - dizer silêncio é encolher-me inteiro. deixar doer-me o coração tão duro e assim anoitecer como se as estrelas se pudessem de repente apagar para sempre - tenho medo.





quarta-feira, 1 de maio de 2013






laura makabresku 







 Desde a obscuridade
de tudo que tudo é inocente.
Nunca se pode ver a noite toda de súbito.

 herberto helder






se fosses viva hoje seria o teu aniversário - e todas as árvores chamariam o teu nome neste dia de abril em que os pássaros não voltam - talvez por teres morrido já nem abril é o mesmo. já não há sol e as nuvens aquecem os olhos - faz anos que não te abraço. nem me dizes baixinho ao ouvido que tudo vai ficar bem. como pode ficar tudo bem sem a tua pele tão velha a ensinar à minha como construir vida - já o mês acabou e até o dia mas a tua memória permanece a bater-me no coração.




sábado, 27 de abril de 2013






laura makabresku 


 fazia nós no outono. o eco genital de Deus a abrir avessos. um sangue muito branco falava na água da pele. é aqui o meu corpo, perguntei, mas deste lado da morte ninguém respondia. árvores todas caíam os braços. o deserto escorria no lugar da pele. um lençol cheio de silêncio respondia pelo mundo. é aqui o meu corpo, perguntei, mas deste lado da morte ninguém respondeu. o dia não sabia se existia. uma canção de barco abria feridas no tempo. as janelas diziam dezembro, dezembro, e a primavera tinha sido ontem por fora. é aqui o meu corpo, perguntei, mas deste lado da morte ninguém responde. 
 pedro sena-lino








tantas vezes na vida inventei memórias de dias felizes. só para sofrer menos. para que os dias passassem mais depressa - às vezes perdia-me. sem saber se era realidade o que vivia ou uma memória feliz que inventara - contigo nunca foi preciso inventar memórias. todos os dias eram felizes no teu rosto branco como neve. foste a ruiva mais ruiva que já conheci. a amiga mais amiga que nunca tive - às vezes descíamos a calçada como dois sardões ao sol. tão devagar que o tempo nem passava por nós. depois corríamos a rasgar o verde de uma infância sem sombra - queria para ti um mundo maior. uma vida mais vida - que fazer enquanto a morte cresce. que fazer enquanto ninguém dorme - que a dor não te incomode e a luz te abrigue.



segunda-feira, 15 de abril de 2013

 
mariam sitchinava 








 De manhã, apanho as ervas do quintal. A terra,
 ainda fresca, sai com as raízes; e mistura-se com
 a névoa da madrugada. O mundo, então,
 fica ao contrário: o céu, que não vejo, está
por baixo da terra; e as raízes sobem
 numa direcção invisível. De dentro
 de casa, porém, um cheiro a café chama
 por mim: como se alguém me dissesse
 que é preciso acordar, uma segunda vez,
 para que as raízes cresçam por dentro da
 terra e a névoa, dissipando-se, deixe ver o azul.

 nuno júdice






partir por partir que me parta o coração já tão habituado - se a origem do mundo fosse um barco talvez nós fossemos a água e o caminho do mundo fosse feito de descidas de rio ou de ondas de mar - que a vida que hoje muda amanheça alegre na esperança de que em algum lugar alguém nos espera. de que de alguma forma o mundo nos pertence - aconteça o que acontecer é primavera e as estações são construídas no coração de um mundo que aprendeu o oceano.