segunda-feira, 11 de novembro de 2013






mariam sitchinava












As noites desmedidas de novembro
abertas sobre a queixa rígida das árvores
inauguram o outono sobre a terra

 ruy belo







quando era pequena acreditava que o mundo era do tamanho do meu país. e era como uma folha em branco onde seria possível escrever todos os continentes que quisesse. e os mares corriam em cascata rumo ao peito aberto - nunca fui de falar muito. observava por entre nesgas de cabelo. a vida. sei hoje tão pouco da vida como nessa altura. aliás. creio que ainda sei menos - quando era pequena fugia do mundo. hoje ainda mais -






quarta-feira, 6 de novembro de 2013


































laura makabresku












No verão em que partiste bem me lembro
 pensei coisas profundas
 É de novo verão. Cada vez tens menos lugar
 neste canto de nós donde anualmente
 te havemos piedosamente de desenterrar
 Até à morte da morte

ruy belo









é outra vez novembro e nenhum ano passa sem que me lembre de todos os rostos que amei - na década de noventa fiz ninho em corações de homens sós. e às noites frias contei verdadeiras histórias de amor. dessas histórias tão histórias que já nem eu sei o que é verdade ou mentira - porque as mentiras que a boca diz são como cinza fertilizando terra - o meu corpo só. na casa dos vinte. corre de encontro à luz. nem a chuva do mês me impede de ir. nem a cinza na boca - às vezes recordo. com alguma saudade. os homens que amei. as mãos deste. as palavras daquele. os silêncios do outro. e fico apertando o coração até que sangre um pouco. pela certeza de os ter querido como quero os dias de sol. quentes na pele - tenho saudade dos nomes. dos corpos. dos homens que amei. que agora recordo em esforço - com os anos a memória encolhe.










quarta-feira, 9 de outubro de 2013






ann he















Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

 Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer

ruy belo







quando era pequena era loira e tinha os joelhos tão tortos que as minhas saias eram mais compridas. de propósito só para os tapar - tinha uma terrível afeição por notas e para me portar bem era só dar-me uma ou outra para a mão - lembro-me que não gostava das estátuas da virgem maria e quase sempre fazia dela a minha boneca. onde experimentava as roupas da barbie ou fazia espetaculares pinturas - a minha avó. que por ser tão paciente e amável há-de estar no céu. ensinou-me bonitas canções. histórias de uma carolina com lagartos na saia ou de um serafim que comia sem usar colher. que eu cantava tapada abaixo até ao rio - sempre gostei muito de água. ainda hoje. sentar-me descalça na borda do tâmega e deixar os peixes pequenos fazerem-me cócegas nos pés. dormir com as mãos dentro de água. ainda hoje - eu sei que a minha avó já cá não está mas às vezes é como se ela me desse uma nota para a mão. eu a apertasse tão forte que as unhas me ficassem marcadas na palma. e a ouvisse dizer - porta-te bem.











sábado, 5 de outubro de 2013










laura makabresku







Por tu amor me duele el aire,
el corazón
y el sombrero.

lorca









 o caminho faz-se caminhando - assim me dizia a boca ao coração. como um segredo que o tempo guarda - os dias passam. lentamente. uns sobre os outros. o corpo resiste à memória - não quero perder nada - os caminhos da minha infância. o cheiro a hortelã. o gosto da canja de galinha. o entardecer na ponte. o teu sorriso demorado. os caracóis no quintal. as histórias do tio zé. não quero perder nada - o meu maior medo é esquecer - as girandolas. a geada nos campos. as flores amarelas das giestas. a água fria do tâmega. as modas da joaquina. as quadras dos réis. as saias da dona isaura. os diospiros do ferreiro. a marmelada. a lenha a estalar no lume. as urtigas nas pernas - o meu maior medo é esquecer - as tangerinas. a roupa a secar na eira. a aletria quente. as ceroulas do avô. o frio das manhãs em dezembro. os mergulhos. as meias de lã - não quero perder o teu nome. as ruas por onde passaste. os lugares onde me levaste. nenhuma festa. nenhum carinho. não quero perder-te e o corpo resiste à memória.








quarta-feira, 2 de outubro de 2013










Ann He











Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
 perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui


ruy belo






às vezes invento terra. só para construir montes onde existam bosques e árvores densas onde guardar memórias - ando pela vida. às vezes sem vontade. como em pesadelos. e invento dias melhores. um futuro onde sossegar o corpo e entregar a pele ao frio das manhãs - as estações passam por mim como pirilampos no verão. depressa chegam. depressa partem. e não há um momento em que a consciência consiga nomear o dia exato de estar. apenas se é hoje ou amanhã - tenho uma vaga ideia dos dias porque o corpo adormece e acorda em diferentes lugares. sei quando escurece porque não se vêem as nuvens. pouco mais - tantas vezes me esqueço de mim. até. que descubro que idade tenho porque me dói andar - o meu maior medo é morrer sem me lembrar de quem me fez feliz.
















sexta-feira, 27 de setembro de 2013







laura makabresku









Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.

herberto helder






às vezes o amor doía - que fazer do coração. sem cabeça. o que dizer à boca - e vivia o completo silêncio de quem sabe que os meus dedos existiam com o único propósito de sentir a tua pele - e doía como uma madrugada fria na pele. como uma luz forte nos olhos ou maracujás ainda não maduros na língua - talvez o amor seja isto. este sentir-me só entre os teus braços - 







domingo, 22 de setembro de 2013






laura makabresku








E demais a mais a gente vai-se habituando aos objectos e acaba por ter saudades deles quando desaparecem. Teria saudades do marido se ele desaparecesse? Julgou que sim, julgou que não, julgou que sim, cessou de julgar. Em trinta e seis anos o marido não desaparecera nunca e, portanto, seria pouco natural que desaparecesse agora, perto dos setenta. Para mais afigurava-se-lhe que de há semanas para cá ele começara a arrastar um pouco uma das pernas e de perna arrastada ninguém vai muito longe.

antónio lobo antunes






- o futuro nunca chega e o tempo passa. tão rápido como os anos pela pele. já murcha de espera - a tristeza não acaba. nem o tempo - que fazer ao corpo quando a noite se precipita. que fazer da boca quando os silêncios fartam - no peito cresce musgo. humidades de um outono que não chega - às vezes acredito que o futuro é o lugar onde nunca chegamos - os braços pêndulos. as pernas esticadas e um corpo inerte pelo peso das memórias - assim vou pela vida como um voo de pássaro entre neve e gelo -