segunda-feira, 9 de maio de 2011

































Hoje de tarde alguma coisa tranqüila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.

clarice lispector




não é tarde. talvez daqui a algum tempo te olhe nos olhos e te diga: para sempre. até lá não é tarde. nunca mais. meu bem. tarde só em sonhos. quando os não tenho. ou quando por não tê-los durmo mal. as noites são por defeito minhas amigas. como as nuvens ou a chuva. ou o frio nos arraiais. é verão e decerto em hora já tardia o coração não sabe o que dizer. melhor esperar. silêncio. amanhã falo-te dos dias da minha infância. onde fui feliz. por não conhecer o mundo. hoje talvez o mundo seja essa coisa feia. mas aqui ainda moram os campos da minha infância. com cores que já não existem. quero trazer-te para aqui. sossega coração só. amanhã o futuro chega. até lá vamos por aí conquistando terra ao coração.













domingo, 8 de maio de 2011
















esta paixão pelos objectos que guardaste
esta pele-memória exalando não sei que desastre
a língua de limos


al berto





a paixão tem manhãs de água. onde dormes sossegada. sob o lado esquerdo do corpo. o rosto voltado para a janela. leve luz na pele. o braço descoberto. vontade de ficar para sempre aqui. na feliz memória do teu corpo dormindo. a paixão vem sempre que te lembro. o corpo pequeno. quieto. sossega coração. não vou. nenhum outro lugar é meu. em nenhum outro mundo seria tão feliz. descansa. amanhã outra manhã nos espera. uma memória. a mesma.





















Acreditei que se amasse de novo
Esqueceria outros
Pelo menos três ou quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
Organizei a memória em alfabetos
Como quem conta carneiros e amansa
No entanto flanco aberto não esqueço
E amo em ti os outros rostos.

ana cristina césar




dentro da pele guardo essas histórias. tempo de abraços. e nenhum de nós aqui ficará para falar do lugar onde nos amamos. como se habitássemos ainda as nuvens. e nenhuma árvore tivesse descoberto dois corpos assim tão dados. que nem vento passava entre as peles. nem nada. fomos felizes. decerto. ninguém nos tira esse lugar onde fomos felizes. que levaremos connosco para debaixo de qualquer terra. ainda penso muito em ti. sei dos teus olhos. enormes castanhos. o mundo inteiro à minha espera. contavas nos dedos os anos como chuva. sabias de cor o nome dos meses. os dias. os anos. fomos sempre felizes. no tempo em que nos conheciam as águas. as flores. todas as noites. estrelas. o próprio silêncio. cúmplice dos melhores amantes. nos acompanhou. velaram o teu corpo quando morreste. sei-o. tão perto sempre estiveram. tão perto. impossível seria não lembrar-te neles. a boca. o beijo. um beijo de dias inteiros. para sempre.










































A que se referia?
- À morte – respondi.
- Sim, eu também falava da morte. Mas surpreendeu-me que você estivesse a pensar o
mesmo.
- Pensamos todos no mesmo a partir de certa altura.
- Talvez – murmurou, e a voz tinha uma ponta de orgulho. – Mas nem todos de igual maneira. Sou forte. Por isso é que penso nela. Detesto a fraqueza que se remedeia na imaginação, nas hipóteses. Não creio em nada. Não desejo crer em nada.
- Pensa que vai morrer quando quiser?

herberto helder









os dias passam por nós. tão breves. ninguém repara. ao fim de um dia outro começa. quando acordamos há outro corpo deitado. quando deitamos o outro corpo levanta. nenhum dos dois se sabe vivo. nem a si nem ao outro. os dias atrás dos outros. passam. em nós o tempo faz histórias. que depois contamos uns aos outros. como memórias ou segredos. vários. às vezes queria reinventar essa trio: passado. presente e futuro. criar outro mundo onde deixar a existência. fugir depois selvagem como as águas. por dentro da terra. construir passagens secretas entre os tempos. renascer.









quinta-feira, 5 de maio de 2011






























Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
E o a vir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer — fosse abertura —
E a saudade é tudo ser igual.


daniel faria










dizem que foi céu fora. com o vento. ao colo levava todos os lugares onde foi feliz. não sei. não vi. não voltou. não tive como falar-lhe e tenho pena. e magoa. nenhum regresso foi mais esperado. talvez uma nuvem baixa a carregue dentro. já morta de ar ou medo. às árvores fui contando tudo. na terra esperei outras primaveras. mais felizes. tive saudades. tenho saudades. os olhos são duas esferas baças.tenho tanto medo de ficar sozinha.









segunda-feira, 2 de maio de 2011


































Conheço algumas cidades da europa e a fantasia vagarosa
da cidade da minha infância.
Tu desapareceste. É um erro
das musas distraídas. Não há guindaste que te levante
do coração das águas,
onde apodreceste envolvida no halo do teu amor invisível,
ou recolhida na tua carne rápida, ou ainda
ligeiramente tocada pelo ardor
de uma existência pura. Conheço grandes casas
onde não habitas, flores que cheiro, tarefas
silenciosas que cumpro humildemente, e luzes,
instrumentos de música,
laranjas que devoro sentindo o gosto da vida, desde a garganta
às mais finas raízes das vísceras. Tu
desapareceste.

herberto helder






tantas vezes o teu nome. chegado de ontem. não sabe do meu. paisagens da minha infância. países de verde musgo e sal marinho. barcos voltados para à terra. ao colo a boneca de trapos. falta-lhe um braço. o meu já dormente. se soubesse escrever poemas. dizê-los em voz alta às árvores. às mais altas montanhas escrevi histórias. no seu cume apanhei nuvens - era uma vez um coração livre que voava, ia com os pássaros - o vento preso aos cabelos. a tornear os troncos. tantas vezes fui com o vento manso do sul. conhecer o azul dos mares. - leva-me para dentro da noite. apanho uma estrela e vou conhecer outros planetas - dizer o teu nome é conhecer o mundo. contar a pele de todos os corpos sós.













domingo, 1 de maio de 2011

























"… cantada por um homem chamado Caruso que se diz que já morreu.
A voz era tão macia que até doía ouvir.
A música chamava-se "Una Furtiva Lacrima".
"Una Furtiva Lacrima" fora a única coisa belíssima na sua vida.
Enxugando as próprias lágrimas tentou cantar o que ouvira.
Mas a sua voz era crua e tão desafinada como ela mesma era.
Quando ouviu começara chorar.
Era a primeira vez que chorava, não sabia que tinha tanta água nos olhos.
Não chorava por causa da vida que levava:
porque, não tendo conhecido outros modos de viver, aceitara que, com ela, era "assim".
Mas também creio que chorava porque, através da música,
adivinhava talvez que havia outros modos de sentir,
havia existências mais delicadas e até com um certo luxo de alma.
Muitas coisas sabia que não sabia entender…"

clarice lispector








quando chorava. doíam-lhe todos os meses. e os anos passavam. lentos. a pouco e pouco todos parecem lembrá-la menos. a sua falta só no silêncio da casa. o lugar sempre vazio no sofá. a sua voz. tão triste. que me dizia - é noite todo o dia nesta janela- também eu chorei. no dia calmo de dezembro. em que não chovia. e as nuvens altas cantavam. partiu sozinha. nenhum anjo a esperava. nenhum deus a levou. foi com o sol.