domingo, 22 de maio de 2011






































Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.



herberto helder














contam-me uma história. de um amor feliz por outras terras. mais frias. um coração que adormece enterrado na neve - quis ser tua amante. levar-te para as terras altas. onde o frio das manhãs brancas sobe troncos. as árvores estão como mortas. quis ser tua amante para te contar todas as histórias de um amor feliz. decorei as palavras. todas. para tas dizer baixinho ao ouvido. nos lábios guardo toda a beleza do mundo que já vi. o outro mundo. o teu. o que tu viste. fala-me dele quando adormecer for difícil como agora - enquanto o amor quiser hei-de escrever. manhãs tristes. noites inteiras. enquanto o sal durar dentro das lágrimas - tarda. já tarde. noites fora nada me chega. e um abraço era tudo o que queria para sossegar a saudade na pele. ainda não aprendi a estar quieta. durmo como se corresse. por entre as ondas vou ao teu encontro. o corpo dói pela violência da água. forte no peito. ossos para dentro dos órgãos todos - quero chorar muito. fugir dos nomes. dos rostos. do mundo. um dia hei-de morrer e o corpo quieto será velado pelo teu. contarás a história de um amor feliz por terras amenas. onde as árvores sonham deitar a copa nas nuvens.











sábado, 21 de maio de 2011





































e eu que sou louco, um pouco, não ao ponto de ser belo ou maravilhoso
ou assintáctico ou mágico, mas:
um pouco louco,
porque faço com mãos estilísticas um invento fora e dentro dos estados
naturais:e a faúlha e o ar à volta dela, jóia, digo, quero-a de repente,
e as matérias maduras e dramáticas: ouro, petróleo:
e com que potência madibular me debruço sobre o prato,
e ávido e inculto,
com mão aprendiz côlho o áspero alimento do mundo,
e rosto, membros, torso, radiações dos dedod,
trabalho no meu nome,
obra pequena de hemoglobina, enxôfre, células, osso, lume,
para estar mais perto de quem acaso me chame ou toque
---- eu,
sem beleza nem maravilha,
só dor,
desamor ou descuidada memória ----
mas mr conheça por isso que não é bem música,
talvez sim um som
dificílimo, sêco, acerbo, rouco, côncavo, precaríssimo
de apenas consoantes,
pregos



herberto helder







aquele louco sorria. a pele cabia-lhe exactamente no corpo. tremia. os olhos eram cinza escuro quase preto. não havia céu e o silêncio absurdo. nas pernas. nos pés nus. quietos no asfalto. - olha para mim - a cidade foge-lhe. nenhum rosto o encontra. só o tempo o espera do outro lado da estrada. os loucos também têm memória. o cabelo era a reentrância do espanto. - quando anoitecer. se anoitecer. levo-te para casa. e olhavas para mim sem nome. como todos os loucos.














































A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.

herberto helder




quero o silêncio dos teus braços. o socorro do teu corpo. o coração.










































zeynep kayan






As mãos pressentem a leveza rubra do lume
repetem gestos semelhantes a corolas de flores
voos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
encalhada como um barco nos confins do olhar

ergues de novo as cansadas e sábias mãos
tocas o vazio de muitos dias sem desejo e
o amargor húmido das noites e tanta ignorância
tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
quase nada

al berto





para onde voam os pássaros. juntos. como palavras deitadas ao vento. houve coisas que te queria ter dito com a mesma força com que os pássaros se lançam ao céu. como por dentro das nuvens o mundo é maior. ou a força do corpo que quieto sonha contigo. às vezes só na companhia dos móveis encontramos o afecto. ou a sua falta se reproduz de tal maneira na pele que choramos um pouco. chorar não é mau quando estamos na companhia dos móveis. e sei: não se pode adiar o voo. vou com os pássaros. manhãs claras de maio esperem-me noutro ano.


























o teu amor, bem sei, é uma palavra musical,
espalha-se por todos nós com a mesma ignorância,
o mesmo ar alheio com que fazes girar, suponho, os epiciclos;
ergues os ombros e dizes, hoje, amanhã, nunca mais,
surpreende o vigor, a plenitude
das coxas masculinas, habituadas ao cansaço,
separamo-nos, à procura de sinais mais fixos,
e o circuito das chamas recomeça.

é um país subtil, o olho franco das mulheres,
há nos passeios garrafas com leite apenas cinzento,
os teus pais disseram: o melhor de tudo é ser engenheiro,
morrer de casaco, com todas as pirâmides acesas,
viajar de navio de buenos aires a montevideu.
esta é a viagem que não faremos nunca, soltos
na minuciosa tarde dos lábios,
ágil pobreza.

permanentemente floresce o horizonte em colinas,
os animais olham por dentro, cheios de vazio,
como um ladrão de pouca perícia a luz
desfaz devagarmente os corpos.
ele exclama: quando me libertarás da tosca voz dormida,
para que seja
alto e altivo o coração das coisas? até quando aguardarei,
no harmonioso beliche, que a tua visão cesse?



antónio franco alexandre








às vezes o tempo pára. quando nos damos as mãos. o corpo todo nelas. e a boca na boca à margem da palavra. tão pequena. a luz forte do sol por detrás do rosto. quieto. nem as árvores mexem. um cheiro a terra. forte. a voz no ouvido: não fujas. amanhã é tarde para o coração. e eu sei teus olhos são a chuva. a tempestade. pela manhã o silêncio que acorda. durante a tarde a secura da pedra. fomos. decerto sobre nós só as manhãs claras ou as tardes de maio. amanhã é outro dia e os dias passam. não fujas.










domingo, 15 de maio de 2011




































As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.

herberto helder






do silêncio um beijo. se duas bocas fossem como cair do nono andar de um prédio antigo. no centro da cidade. onde as paredes abandonam o ruído dos corpos que não se abraçam. eu quero muito abraçar-te. por cima das nuvens construir um prédio. alto. que desse para outro mundo. um mundo onde corpos se abraçassem. onde beijos fossem palavras como: amor. e barcos voassem dentro dos olhos. e tudo fosse um mar de ser feliz e sorrir muito.










































Esta mulher é formosa
como uma flor da montanha,
mas é fria, fria, e é fria
como a margem de neve
onde fria floresce.

herberto helder





só não sabemos por que dói às vezes. por ser deserto por certo. também o coração não tarda a existir dentro de todos os corpos que amei. fico em silêncio. nenhum movimento me pertence. quero dizer-te hoje que está um bom dia. para correr. para chorar um pouco. para escrever sobre estas árvores de onde subitamente se levanta o vento. estou só. ando há algum tempo só. talvez por ser assim mais fácil esquecer o coração. há rostos que te lembram da vida. queria também dizer-te que faz frio no azulejo e os pássaros procuram no telhados lugares para fazer ninho. quero um ninho posto do lado esquerdo do peito. talvez também por ser deserto fico sem voz. há qualquer coisa de descoberta em não ter voz. em doer-nos o mundo. lá fora. fico quieta. talvez algum pensamento me visite. este domingo está fresco.