quinta-feira, 31 de março de 2011
















Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontrar-te
Nada no fundo tinha que dizer-te
e para ver-te verdadeiramente
e na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
Era tudo tão simples quando te esperava




ruy belo







- difícil é dizer-te que eu sei que há sol. que é primavera. que as flores são paisagens. que a saudade é só um raio. que atravessa o peito e arranha o coração. e sei que todas estas coisas só o são dentro da minha cabeça. ou do meu coração. e que as mãos trémulas e os olhos turvos não encontram nada. e sei que tudo isto é quando eu sou. este poço de água límpida. afastado da margem é fácil imaginar como será o fundo. perto o céu não faz sentido. porque o céu como o conhecemos é longe. e todas as coisas de longe nos parecem outras. difícil é não ter-te dentro das águas. sentires que as nuvens são na pele como a passagem dos dias lentos. que os outros que eu sou no fundo são como fetos. -
























Espantado meu olhar com teus cabelos
Espantado meu olhar com teus cavalos
E grandes praias fluidas avenidas
Tardes que oscilam demoradas
E um confuso rumor de obscuras vidas
E o tempo sentado no limiar dos campos
Com seu fuso sua faca e seus novelos
Em vão busquei eterna luz precisa


sophia de mello breyner








as coisas simples são as que doem mais. dizer-te bom dia. sorrir. fechar os olhos. correr com os braços atrás das costas. no peito o coração não sabe das palavras. só o silêncio dentro. outros lugares onde o corpo pudesse descansar. um tronco de árvore. uma nuvem baixa. uma voz que volta .de longe. amor. regressa. uma casa plantada nos baldios. ao fundo o rio e o teu corpo semi nú nele. as tuas costas brancas. frias. trémulas as mãos ao teu encontro. à frente do corpo um redemoinho de ervas. sorris. a água cobre-te o corpo. vais para longe. onde nenhum corpo te alcança. ninguém sabe de ti. água. mar. vento ligeiro. terra fértil. todos os pássaros aqui vivem. primavera. as flores crescem. de ti não sei. dói.










segunda-feira, 28 de março de 2011

































picasso



















Ter um barco que percorra distâncias incríveis
Saber remendar um sapato


Encontrar um amor
Amor de verdade
Ser vento, ser luz, fogo ou carvão


Tudo, tudo, tudo
Menos esta ratoeira

patrícia galvão






tenho às vezes esta tristeza. cresce. uma ternura que não esquece. suave. atrás dos dias. outros. um dia. depois da chuva. conto-te uma história feliz. de uma menina princesa pequena de olhos enormes que acreditava no mundo. um dia. hoje não. talvez mais tarde quando o corpo se deitar à noite. de silêncio rasgar os meus segredos. quero dizer-te do vento. das flores. das silvas. depois amoras. maduras. nos muros. a natureza. é da minha natureza esta tristeza de olhar dentro de todas as coisas. esperá-las morrer. deitar o corpo à terra. não penses que me esqueci. de ti. dos nossos dias. quero-os tanto como tu. mas este tempo. esta tristeza. tenho saudades do que nunca tive. um abraço. um sorriso. um dia falo-te de amor.



































e houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

herberto helder









não tinhas olhos. lembro-me. chegavas de madrugada. falavas de sonhos. ou pesadelos. como de costume com a boca de quem é silêncio. sentavas o corpo. acordavas o coração. adormecias a pele com canções ridículas. de amor. dizias. não tinhas peito. os ossos eram-te luz de dia. ou noite. fria. contavas-me da vida. gesticulavas. a pele fechada num quarto semi-vazio. só tu e eu. duas cabeças pendentes para o lado do sol que nos custa menos.














domingo, 27 de março de 2011

























Escuta, escuta:
tenho ainda uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei,
não vai salvar o mundo,
não mudará a vida de ninguém
- mas quem é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco mais.
Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

eugénio de andrade










quero dizer-te coisas tão simples como o coração procura água ou contar-te do céu por onde os pássaros regressam. que nunca vi. nem ouvi. outra boca. tão bonita como a tua. assim parada a olhar-me como quem beija o silêncio. ficou-me ontem a memória presa ao teu sorriso. um sorriso de ruas inteiras. ruas pintadas de março. com horas mais longas por ser primavera. outras coisas direi quando já for agosto e o teu sorriso cair com as flores de março. secas pelo sol. por agora só o teu nome chama a minha boca. na memória da tua.
















sábado, 26 de março de 2011















Há bocadinho fui espreitar à janela e estava uma rapariga lá em baixo, à chuva. Isto às onze da manhã, a rua deserta e ela imóvel diante da agência de viagens, sem gabardina sequer, à chuva. Cabelos curtos, sapatos de ténis, os braços ao comprido do corpo, sozinha como uma estátua. Não volto à janela porque não quero encontrá-la, parece acusar-me de uma falta que desconheço, afigura-se-me um remorso vivo. À chuva. Não acaba, este inverno, esta solidão magoada, desconfortável. Faz três anos andava eu à brochinha com o cancro, sangue por todos os lados, a emagrecer, a sentir-me mal, a teimar que era uma bactéria qualquer que trouxera do México. Guadalajara, Guadalajara: deram-me a chave de oiro da cidade: está lá para dentro, no seu estojo, numa gaveta de armário. A chave de oiro de uma cidade não abre nada a não ser portas interiores: e para além das portas interiores quartos vazios na sombra, cada qual com a sua rapariga à chuva que aliás agora parou, veio uma suspeita de sol. Não tarda nada o sol vai-se e a chuva recomeça. Até quando? Dá ideia que para sempre, nunca mais vai cessar de chover. E a rapariga ali quieta, não à espera, não por teimosia, ali apenas, se calhar para sempre também. Vinte, vinte e cinco anos, sozinha.


antónio lobo antunes














quando chove pergunto: ainda chove. ninguém responde. nenhum eco acode à paisagem para mo dizer. amor. ainda chove. ainda aqui estão as nuvens. ainda assim. fico. ninguém. só o silêncio. a pele reclama pelo teu corpo. o teu nome na minha boca à espera. todos os dias quando chove. um homem é um barco. um barco na terra. no céu. no peito só o coração. em silêncio diz que chove.












sexta-feira, 25 de março de 2011

























Queres um cigarro? - pergunta ele. Aceito. Acende-mo com gentileza, embora se pudesse esperar, devido a toda esta tensão, que simplesmente me atirasse o maço de cigarros e a caixa de fósforos. Pretende ser distantemente gentil, mas a mão treme-lhe quando me estende os cigarros. Quer dar-se, dar-se para lá de qualquer expressão inóspita, da teoria masculina da força e do poder. E então ocupo-me do meu corpo. Penteio-me, calço as meias, ponho bâton. O homem folheia um livro. Coloca um disco no pick-up. E quando se vira, talvez para dizer: por favor, fica - eu levanto a cabeça e pergunto: já deixou de chover?

herberto helder







ela respira. a voz está já tão morta. o corpo todo tão afogado. a pele em água. quando se volta não há regresso. em nenhuma porta ninguém a espera. ela não sabe. se soubesse não adormecia assim a noite nos lábios. como um sussurro. tão alto que acorda a rua. tão quieta vai a rua e ela. silêncio. só mais tarde no lugar do coração o mar. alto e bravo. mar. não calmo e manso. ela respira. um dia destes. fraca memória. cabeça perdida. coração na boca. porque as memórias não morrem. são como sorrisos. e nenhum outro país saberá dela.